Na mesa de um juiz criminal, uma pilha de processos. Cada um com a história de uma vida. Uma simples assinatura pode mudar o destino de uma pessoa. Na hora da decisão, algumas vezes difícil, não é raro a emoção se intrometer. O juiz presidente do Tribunal do Júri, João Luiz Cleve Machado, não só admite essa intromissão como a considera normal. ''Independentemente da profissão, somos todos humanos. Acho que um juiz tem que ser muito emotivo, senão não serve para julgar os outros''.
Machado lembra ainda que um bom juiz precisa saber se colocar no lugar dos outros e tem que entender muito de sentimentos porque nas mãos dele estão as vidas de outras pessoas.''No mesmo processo, tem o lado de quem matou e o de quem morreu. Vejo o desespero de uma mãe que viu o filho ser morto e da outra, que está com o filho preso'', argumenta. ''É preciso ter muito cuidado porque numa canetada pode se destruir a vida de alguém''.
Sentimentos como piedade e angústia são velhos conhecidos do juiz. ''A gente tem que saber o que é emoção e não ficar alheio às emoções do processo. Muitas vezes, a emoção é o motivo do crime e o motivo tem muita importância num julgamento. Por exemplo, é diferente um pai que mata o estuprador da filha e o assaltante que mata o dono da padaria. Embora os dois sejam homicidas, são casos muito distintos'', ressalta.
Para ele, a emoção ajuda, não atrapalha. ''Infeliz daquele que não consegue levar o lado humano para a profissão. Mesmo colocando a razão acima dela, a emoção não pode ser excluída nunca''. Afinal, segundo o magistrado, emoção é também o sentimento de paz que lhe garante sempre um sono tranquilo: ''Meu maior tribunal é o meu travesseiro. Tenho a convicção de que nunca condenei um inocente. Posso ter absolvido um culpado, mas nunca mandei um inocente para a cadeia''.(P.F.)

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