A árvore de dinheiro
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de agosto de 2002
Phoenix Finardi<BR>Reportagem local 
O menino olhou maravilhado as moedinhas reluzindo na palma da mão. Era um garoto magro e pequenino. Aquele era o primeiro dinheiro que ele ganhava na vida. Sentado na soleira da porta, ele apertava as moedas na mão e sonhava: sorvete com coca-cola, um pião, um caminhão de madeira com rodinhas de verdade... Foi despertado do devaneio pelo irmão mais velho: ''O que você está escondendo aí na mão?''. O orgulho venceu a desconfiança e o garoto exibiu as moedas. Com a cobiça atiçando a criatividade, o mais velho suavizou a voz: ''Você quer que eu ajude a plantar as moedas?''. ''Plantar?'', estranhou o pequeno. ''É. Você não quer ter uma árvore de dinheiro? Pois então, precisa plantar as moedas igual a gente planta os pés de café. Põe a semente na terra e a árvore cresce''. ''E vai crescer uma árvore de dinheiro de verdade?'', quis saber o irmão mais novo. ''É claro. Aquelas notas de dinheiro de papel são as folhas, que a gente colhe e as moedas são a semente que a gente planta'', explicou o outro. Seduzido pela idéia, o pequeno olhou pela última vez os cobres na palma da mão e entregou-os ao irmão. ''Deixa que eu faço isso porque se não souber plantar a árvore não nasce'', garantiu o mais velho.
O garoto observou com atenção o irmão abrir o buraco na terra, nos fundos do quintal, e colocar as moedas. Depois, cobriu e recomendou: ''Não conte prá ninguém senão o pessoal rouba tudo''. Durante uma semana o pequeno se encarregou de colocar água no local todos os dias. O tempo foi passando e nada da árvore aparecer. O garotinho ficava de joelhos e apertava os olhos perto do chão pra ver se enxergava algum brotinho, nem que fosse mínimo. Nada.
Um dia, cansado da espera, chamou o irmão: ''Minha árvore não nasce''. ''Que árvore?'', perguntou o outro, já esquecido. ''A árvore de dinheiro''. ''Ah, sei. Pois é, demora mesmo'', disse o irmão. O pequeno esperou mais uns dias e aí, consumido pelos desejos de sorvetes, doces e brinquedos, pegou uma colher na cozinha e começou a cavar. Abriu dezenas de buracos no quintal, sem se preocupar em fechá-los. Quando o irmão mais velho apontou no portão, foi intimado pelo pequeno: ''As sementes sumiram''. O outro coçou a cabeça, lembrando do lenço que tinha comprado para a namorada com as moedas do irmãozinho. Ao ver os buracos abertos sentiu-se vagamente culpado. Depois, deixou a culpa de lado para fazer a criatividade funcionar novamente: ''Macacos me mordam, você foi roubado''. ''Quem me roubou? Não entrou ninguém aqui...'', protestou o menininho. O mais velho teve uma súbita inspiração: ''Olha, vou te contar outro segredo, mas você não pode dizer isso pra ninguém. Foi aquela mulher corcunda que mora no fim da rua, sabe? Ela rouba as moedas que a gente enterra e guarda tudo nas costas, por isso fica aquela corcunda enorme''. ''Mas como ela descobriu minhas moedas?'', quis saber o pequeno. ''Ah, ela fica rondando os quintais durante à noite e assim que vê o broto da árvore de dinheiro, que é diferente de todas as outras árvores, ela faz um buraco e rouba todas as moedas'', explicou o irmão. Depois, olhando as lágrimas do garotinho, enfiou a mão no bolso e tirou uma nota do salário que acabara de receber: ''Não chora, não. Olha aqui, eu passei numa árvore de dinheiro hoje e apanhei uma folha pra você. Essa nota vale mais que as moedas''. Dez minutos depois, com um picolé na mão o menino era a cara da satisfação. ''Já está gastando o dinheiro, hein? Cadê o troco?'', perguntou o irmão mais velho. ''Eu pedi para o homem do bar dar tudo em moeda e plantei. Mas não se preocupe porque eu dividi um pouco em cada buraco. Quero ver se aquela corcunda vai conseguir me roubar desta vez!''.


