A arte de ser tolerante
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quarta-feira, 07 de novembro de 2007
Giuliana Reginatto<br> Agência Estado 
São Paulo - Ela nasceu Cláudia Dias Batista de Souza. Se casou aos 14 anos, teve uma filha aos 17, estudou Direito, foi repórter, professora de inglês, bancária, bailarina, entre tantas outras atividades. Hoje, ela é conhecida como Monja Coen, missionária oficial da tradição Soto Shu - Zen Budismo, com sede no Japão, e Primaz Fundadora da Comunidade Zen Budista, criada em 2001, com sede em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo.
Quem é zen também sente irritação e raiva?
MONJA COEN - Claro! Raiva faz parte do ser humano. O que muda é a forma de lidar com ela. Ao contrário de gritar, ter um ataque, comecei a ter outro tipo de reação, pois passei a perceber que a raiva provoca taquicardia, ansiedade. Raiva é humana, não é errado senti-la. Ela possibilita treinar a paciência. Há coisas que me deixam muito indignada! Veja o que está acontecendo com os monges de Mianmar. A raiva alavanca a transformação do mundo, motiva uma ação, mas essa ação deve ser amorosa, nunca violenta.
Justifica-se a raiva daquele que se defende da raiva ?
MONJA COEN - Praticamos a meditação para desenvolver a plena atenção, a capacidade de discernimento. Posso compreender a pessoa enlouquecida pela raiva que me insulta, o que não significa que eu a desculpe. Quando você está alerta, percebe a raiva, mas não quer retro-alimentar essas energias prejudiciais. Cada erro, se bem trabalhado, leva para mais perto do acerto.
Tolerância não é sempre confundida com passividade?
MONJA COEN - Tive um professor que dizia: ''Quero ser bem bobo''. É isso, não interessa ser o espertinho. Alguém diz: ''Olha que bobo, não reage''. Devo reagir de modo amoroso, mas não para provocar. Durante um casamento conturbado, ouvi o conselho: ''Na tensão, junte as palmas das mãos, mas mentalmente!'' Não seja tolerante só para provocar mais. Compreenda as verdadeiras razões que motivam a raiva. Todo mundo ensina, alguns nos mostram como não devemos ser. Com a vida monástica meu coração mudou. Não me importava ser vista como boazinha, mas, sim, fazer o bem. E deixar os rancores do passado.
É ruim falar do passado?
MONJA COEN - Muitos religiosos não falam dos romances sofridos que viveram, dos trabalhos que tiveram. É como se houvesse um corte a partir da vida religiosa. Digo que quis ser freira aos 13, me casei ao 14, me separei aos 17. Minha mãe dizia que eu era ''o filho homem'', me comparava aos primos (Sérgio Dias e Arnaldo Antunes, da banda ''Os Mutantes''). Fui uma das primeiras mulheres a ter moto aqui, fazia reportagens com ela para o ''Jornal da Tarde''. Você entrevista tanta gente, sai do seu mundo, percebe tantas carências . E dói. Senti que precisava fazer algo ou não teria paz. Um dia escrevi sobre uma comunidade budista na Califórnia. Tempos depois me mudei para os EUA.
O passado ficou bem-resolvido?
MONJA COEN - A saudade que senti da minha filha não ficou bem-resolvida. Saudades do tempo que não fui mãe e ela não foi filha. A menina tinha 7 anos quando me mudei para a Europa. Depois, passei 12 anos no Japão, vim ao Brasil cinco vezes. O chamado era tão forte que tive de ir. Se ficasse, teria sido péssima mãe. Foi preciso passar por tudo isso para minha transformação.
Sofreu discriminação por não ter origem oriental ?
MONJA COEN - Ao voltar do Japão, ouvi de uma senhora: ''Aqui não é templo de uma mulher''. E, além de ser mulher, era vista como ''a estrangeira'' por não ser de família oriental. No Japão também foi assim: me casei com um monge 18 anos mais novo, um escândalo. Em outros momentos, fui criticada por me expor à mídia. Dizem que distorcem o que dizemos - e às vezes é verdade. Por ter sido repórter, acho que muitas vezes a intenção não é má.
Por falar em distorção, você já foi presa ...
MONJA COEN - Isso é verdade! Era uma época em que faziam grandes experiências com LSD. A minha se resumia a perguntar: ''Onde está Deus?'' Fui presa ao levar LSD para um amigo na Suécia. Os advogados me pediram que negasse, mas disse: ''Acho que o LSD poderia acabar com o suicídio na Suécia''. E fiquei cinco meses presa.


