A arte de restaurar
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sexta-feira, 05 de dezembro de 2014
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 
Londrina - Algumas pessoas nutrem uma relação de afeto com os objetos que fazem parte de seu cotidiano. Para a criança é a bicicleta tão sonhada. Para um músico é o instrumento musical com o qual executa as canções. Para um amante de uma boa comida, a geladeira da vovó pode relembrar o conforto de saborear uma guloseima que ela preparava. Essa interação pode acontecer com móveis, eletrodomésticos, automóveis ou mesmo um brinquedo. Infelizmente a deterioração resultante da passagem do tempo com o uso frequente desses objetos quase sempre coloca um fim nessa relação, quando o descarte é inevitável. Se não fossem profissionais como os restauradores, muitos desses objetos fatalmente estariam no lixo.
O trabalho deles procura recuperar objetos que possuem valor inestimável para uma pessoa e também aqueles considerados bens culturais, ou seja, os que possuem valor reconhecido por um determinado grupo ou sociedade. Restaurar um objeto não significa apenas trazê-lo à sua forma original, mas também exige que o profissional respeite a história dessa peça, reconhecendo sua tecnologia de construção, materiais e técnicas, o estado de conservação e as possíveis causas das deteriorações.
ELETRODOMÉSTICOS
Para consertar uma geladeira, por exemplo, o processo é bastante demorado e começa no transporte da peça até a oficina, a desmontagem do eletrodoméstico, o lixamento para verificar a condição da peça. As peças muito enferrujadas precisam de um processo de corte e soldagem de uma nova chapa. A lã de vidro também pode ser trocada. Todo um processo de funilaria da parte interna pode ser realizado, assim como a substituição das borrachas, das grades e das portas e gavetas internas. A partir disso é feita a pintura automotiva, polimento, cromagem de peças metálicas, anodização em peças de alumínio, polimento em peças de aço inox e instalação da parte elétrica (fiação interna e externa), com a possibilidade de troca do motor por um mais econômico.
O restaurador Pedro Bene Filho, de 63 anos, começou a consertar geladeiras em 1972, quando entrou em uma empresa de assistência técnica. Na época não possuía conhecimento nenhum sobre o ofício, mas aos poucos foi aprendendo e se aprimorando. Com o tempo ele adquiriu o interesse em recuperar geladeiras e máquinas de lavar antigas e acabou se tornando um profissional gabaritado no assunto. Para fazer esse trabalho, adquire esses objetos de outros municípios. "Um agrônomo conhecido meu viaja por várias fazendas e acaba encontrando essas geladeiras e máquinas. Ele me passa o contato e, a partir disso, eu ligo para o fazendeiro e negocio a compra", explicou. Muitas delas chegam em estado lastimável, com a parte inferior enferrujada, sem motor e com a parte interna bastante degradada. "Existem peças que eu não encontro e tenho que fabricá-las. As peças cromadas, por exemplo, eu mando fazer em Curitiba", ressaltou.
ATÉ TRÊS POR MÊS
Ele relata que restaura duas ou três geladeiras antigas por mês. "É um trabalho demorado. Geralmente levo um mês para fazer uma delas, porque tenho outros trabalhos para fazer e a busca de peças originais é demorada", explicou. Alguns detalhes da peça precisam ser garimpados. Em uma geladeira que ele concluiu recentemente, a logomarca que fica na porta do congelador foi bastante difícil de conseguir, mas depois de muita pesquisa e contatos com pessoas que trabalham com o produto, conseguiu recuperar esse detalhe. O motor da geladeira foi substituído por um mais moderno, que gasta menos energia. "Ela está pronta para usar, como se fosse uma geladeira nova", destacou.


