A arte de negociar a crise
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sexta-feira, 16 de março de 2007
Guilherme Borges<BR>Reportagem Local 
''Um bom conversador''. É assim que o tenente Paulo Renato Siloto, único policial militar que desempenha o papel de negociador do 5º Batalhão da Polícia Militar (BPM), se define. Chamado sempre em momentos de tensão, já ajudou em tentativas de suicídio, crimes com risco às vítimas e em rebeliões. ''É preciso pensar rápido, ter paciência e ser claro no que diz. Além disso, em situações que envolvem reféns, nenhuma ação é tomada antes do trabalho do negociador'', completa.
Advogado formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Siloto iniciou carreira militar em 1993, na Academia Policial Militar do Guatupê. Em 1995 se formou, começou trabalhar no 5º BPM, onde atuou na equipes de trânsito, do serviço reservado e da rádio-patrulha. Foi comandante da Tropa de Choque e, há três anos - depois de se especializar - está no serviço de gerenciamento de crise e situações com reféns.
Como bom estrategista, o tenente é reservado ao falar de suas técnicas e histórias pessoais. ''Cada situação é única. Qualquer crise envolve pessoas no limite da tensão. E como lidar com isso é que é preciso identificar. Também não gosto de falar dos casos porque envolvem histórias de vida'', justifica. Para ele, as situações de tentativa de suicídio são as mais complicadas. ''A pessoa está precisando de ajuda urgente''.
Da última vez que precisou atender um chamado dessa natureza - quando uma pessoa ameaçava se jogar de um dos prédios do Centro Comercial de Londrina (Região Central) - ficou mais de três horas negociando. ''Às vezes preciso estender a conversa para a pessoa sentir confiança em mim. Já cheguei a ficar mais de dez horas em negociação.'' Ele explica que este tempo é necessário para que a pessoa em crise também se acalme e permita o auxílio.
Em casos de reféns tomados em momento de assalto ou outros crimes, ele ensina que um negociador nunca pode mentir. ''Não podemos dizer ao agressor que ele será libertado se soltar a pessoa que mantém refém, porque isso não vai acontecer. Ele tem que saber que fazendo isso, vai ser beneficiado''. Siloto destaca que não atende situações de sequestro, pois há equipes da polícia especializadas em crimes dessa natureza.
Independente do caso em que é chamado, o tenente afirma que o negociador deve saber o que está fazendo. ''Precisa ser profissional e um policial. Negociador não é padre, psicólogo ou advogado, porque as técnicas são específicas para situações assim. Além disso, não é comandante. Ele não vai decidir nada sobre o desfecho do caso, vai apenas fazer a ponte entre o causador do evento crítico e o comandante'', afirmou.
O PM explica que em uma situação de gerenciamento de crise, o policial nunca está sozinho. ''Todo esquema já está montado, inclusive de segurança'', ressaltou Siloto.
Com tanta pressão é inevitável o esgotamento ao terminar uma negociação. ''Particularmente, fico bastante cansado emocional e fisicamente. Não gosto de falar sobre o caso ou como a situação foi resolvida. Prefiro ficar sozinho e em silêncio''. Uma curiosidade é que ele não se lembra de detalhes depois que a negociação termina. ''Leva uns dias para processar tudo. Aí, a memória vai voltando''.


