A árdua tarefa de recomeçar a vida
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de dezembro de 2008
Rosiane Correia de Freitas<br>Enviada Espacial 
Blumenau (SC) - O trabalho de muita gente agora é limpar a casa e tentar recuperar o pouco que sobrou depois da calamidade, em Blumenau. Por toda parte há muita lama, lixo, destroços. Pilhas de móveis e eletrodomésticos ocupam calçadas de toda a cidade. No topo de alguns morros, casas inteiras resistem à força da gravidade e a chuva que voltou a castigar a cidade na última terça-feira.
No alto do Morro do Zendron, em Valparaíso, um dos bairros mais afetados pela chuva em Blumenau, pouco abaixo de um grupo de casas que parecem se segurar pelas raízes para não cair, parte da vegetação que resistiu ao deslizamento forma uma gigantesca imagem de cruz. "É estranho, não? Mas pelo menos ninguém morreu aqui", disse o operário Everson da Silva Coutinho. A casa dele é uma das que estão prestes a desmoronar no alto do morro. "Não há mais como chegar até lá. O caminho está interditado", contou.
Na parte de baixo do morro, na casa do aposentado Heinz Kruger, de 67 anos, o que antes era o quintal e parte de uma oficina mecânica agora é uma enorme montanha de lama. Mesmo assim, ele não pensa em procurar outro lugar para morar. "Moro aqui minha vida inteira", contou. Enquanto a máquina da prefeitura não vem para tirar o barro, Kruger trabalha sozinho, com um carrinho de mão.
Já o aposentado Valter Tallmann, 70 anos, observa enquanto os vizinhos retiram entulho e lixo do córrego de Valparaíso. No domingo, no fim da manhã, quando os deslizamentos mais graves atingiram a cidade, o parquinho da Escola Municipal Julia Scravescoski, no alto do morro, desceu a encosta e parou numa pilha de escombros. Uma ponte do local e parte da estrada que leva a escola também cederam. "A minha casa não foi atingida nem pela enchente, nem pelos deslizamentos, então estou aqui para ajudar os outros", contou.
Enquanto isso, o casal Pedro Otto Weber e Silvia da Silva Weber aproveitou o sol para limpar o que restou da casa em que moravam até a manhã de domingo, dia 23 de novembro. "O negócio é lutar todos os dias", disse Silvia. Quando o rio começou a subir no domingo, os dois ergueram o que puderam e foram para a casa de uma cunhada. "A água aqui chegou a 1,60 metro de altura", contou Weber.
A força da correnteza derrubou boa parte dos móveis que o casal acreditava ter salvo. "Dos eletrodomésticos, só o microondas não caiu na água", disse Silvia. Para limpar a casa, os Weber contaram com a ajuda de conhecidos da igreja que frequentam. "Cada dia vem uma turma diferente", contou. Limpar a casa depois da enchente é um trabalho árduo. "A gente limpa, limpa e ainda falta muito para tirar toda essa lama daqui", disse.
Em Blumenau, a política da boa vizinhança atravessa a cidade. Moradores de bairros que passaram imunes pela tormenta vão ajudar na limpeza dos que foram atingidos. É gente como a professora Ellen S. Zoschke, que desde quinta-feira passada trabalha na limpeza do Centro de Educação Infantil em que trabalha. "Isso aqui já foi limpo algumas vezes, mas a lama sempre volta a aparecer", relatou.
Em Blumenau, 22.800 ficaram desabrigadas, 24 morreram e sete ainda estão desaparecidos. Segundo a Defesa Civil de Santa Catarina, 18.150 residência estão danificadas. Entre os bairros mais atingidos está Garcia, Valparaíso e Progresso.


