A alma japonesa na cultura brasileira
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
Jorge J. Okubaro<br>Agência Estado 
São Paulo - Um ''registro da mobilidade social dos imigrantes japoneses e seus descendentes, e de sua contribuição para a formação cultural da sociedade brasileira''. É assim que o professor emérito da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e presidente da Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, Kokei Uehara, resume o significado do livro O Nikkei no Brasil. Trata-se de uma obra coletiva coordenada por Kiyoshi Harada e que será lançada na terça-feira (15), a partir das 19 horas, no hall da Assembléia Legislativa, no Ibirapuera.
O livro abre uma lista de lançamentos de títulos que tratam da imigração japonesa e que certamente virão a público ao longo de 2008. Afinal, este é o ano em que se comemora o centenário da imigração japonesa no Brasil, iniciada em 18 de junho de 1908, com a chegada do navio Kasato Maru ao Porto de Santos. A expressão nikkei, empregada no título do livro, refere-se aos japoneses e seus descendentes que moram fora do Japão.
É uma obra extensa (630 páginas), que mostra como evoluiu a imigração japonesa no Brasil, como ocorreu a integração dos imigrantes e dos nikkeis em geral à sociedade brasileira, as tensões surgidas ao longo dessa integração e a influência dos brasileiros de origem japonesa em áreas tão diversas como agricultura, indústria, comércio, assistência social e saúde.
O livro dedica, ainda, dois capítulos densos a um dos fenômenos mais marcantes da história da imigração, que é o dos dekasseguis - os nikkeis que, em grande número, resolveram fazer o caminho inverso de seus pais e avós, deixando o Brasil para ganhar a vida no Japão. O primeiro desses capítulos é de autoria de um dos mais profundos conhecedores do problema, o advogado e professor de Direito Masato Ninomiya, que preside o Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior (Ciate), instituição criada para dar assistência aos dekasseguis.
O segundo, de autoria do psiquiatra Décio Issamu Nakagawa e da psicóloga Kyoko Yanagida Nakagawa, contém pelo menos uma constatação instigante: a exclusão social entre os nikkeis. A impressão dominante, diz Décio Nakagawa, era a de que a coletividade nipo-brasileira se constituía de universitários, comerciantes, industriais ou agricultores bem-sucedidos. Tendo estudado a situação dos dekasseguis, o psiquiatra concluiu o seguinte: ''O movimento dos trabalhadores brasileiros no Japão revelou uma faceta invisível ou escondida. Cidadãos brasileiros, que poderiam ter passado toda sua existência sem a consciência de sua exclusão social, com o movimento migratório, tomaram conhecimento dessa dura realidade até então mascarada.''
Eis aí um tema que mereceria um exame mais profundo dos especialistas. A extrema necessidade de aceitação pela sociedade local, por exemplo, forçou os japoneses e seus descendentes a conviver com frequentes manifestações de insatisfação com relação a sua presença no Brasil, como as relatadas por Harada. O mesmo autor fala ainda do envolvimento de nikkeis na resistência ao regime militar, tema que os descendentes de japoneses costumam evitar.
Mas o livro contém também uma definição preciosa do nikkei: ''Mais do que um ser dual, com alma japonesa, se comportando como um brasileiro, o nikkei, hoje, não pode ser considerado japonês. Ele é nikkei, um japonês ou descendente que tem o Brasil como sua pátria materna, que carrega traços indissolúveis da cultura japonesa, muitas vezes não mais encontrados no país de origem.''
Na parte final, o livro traz entrevistas com algumas das personalidades nikkeis mais conhecidas ou atuantes na sociedade brasileira, entre elas o comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Juniti Saito; o ex-ministro Shigeaki Ueki; o sociólogo, ex-diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e atual pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária da USP, Sedi Hirano; empresários como Chieko Aoki e Renato Nakaya; o desembargador aposentado Kazuo Watanabe; e jornalistas como Celso Kinjô, ex-editor chefe do Jornal da Tarde, e os que se dedicam a publicações e programas voltados para os nikkeis, como Helena Mizumoto, Raul Takaki e Paulo Nobuo Miyagui.


