A água, o vento, o fogo e a Folha
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quinta-feira, 18 de outubro de 2018
Paulo Briguet 

Nassim Taleb, um mestre contemporâneo, classifica as pessoas e instituições em três categorias: (1) as frágeis, que cedem e se desintegram diante das crises; (2) as robustas, que suportam as situações difíceis e surpreendentes; e finalmente (3) as antifrágeis, que se beneficiam e fortalecem mesmo diante do inesperado e do caos.
A Folha de Londrina, que completa 70 anos no dia 13 de novembro, é uma instituição antifrágil por excelência. Desde os tempos de João Milanez, que deixou o ofício de sapateiro para se tornar dono de jornal, a Folha tem atravessado os períodos de bonança e tempestade com a mesma solidez e o mesmo dinamismo. A solidez e dinamismo, virtudes aparentemente opostas, combinam-se mutuamente em um casamento dialético. Que Karl Marx me perdoe, mas nem tudo que é sólido desmancha no ar.
Vocês, meus sete leitores, sabem que não acredito em coincidências. Não suponho ter sido acaso, portanto, que no mesmo dia em que a Folha de Londrina era homenageada na Câmara dos Deputados (por iniciativa do amigo Luiz Carlos Hauly), uma velha árvore tenha caído a alguns metros do jornal, provocando uma queda de energia em todo o centro da cidade.
O temporal da última quarta-feira é o símbolo de todas as dificuldades que Londrina e a Folha enfrentaram e continuam a enfrentar desde os tempos pioneiros; dificuldades que só enaltecem as nossas realizações como cidade e como jornal. Como bem descreveu o belo editorial de ontem - que desconfio ter sido escrito por uma de minhas amigas editoras, Adriana De Cunto ou Célia Musilli -, a falta de luz na redação não foi impedimento, mas antes estímulo, para que o jornal circulasse no dia seguinte.
Lembrei-me do dia 24 de abril de 2000, em que eu era um jovem redator de primeira página da Folha. Nesse dia, um incêndio destruiu o CPD do jornal. Os editores e repórteres fizeram um mutirão, muito semelhante ao de terça-feira, para colocar a edição do dia seguinte na rua. Voltei para casa de madrugada, cheio de fuligem e com forte cheiro de queimado, mas feliz por termos cumprido nossa missão.
A água da tempestade e o fogo do incêndio, trazidos pelo vento do inesperado, não foram suficientes para derrubar a Folha. Nessas horas, é como se João Milanez, Estélio Feldman, Marinósio Neto, Carlos Silva, Antônio Claret de Rezende, Nilson Rimoli, Pedro Vergara e outros velhos guerreiros estivessem na ativa para ajudar na edição à luz de velas. É como se os pioneiros voltassem a construir casas, a enfrentar doenças, a semear a solo. É como se José Eduardo de Andrade Vieira, o Zé do Chapéu, retornasse à vida para comandar um novo desafio, como ele fez ao separar a briga entre uma onça e um cachorro na sua fazenda.
É como se o jornalismo fosse um milagre diário. E é.
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