Na margem direita do Rio Madeira, ao lado da antiga estação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, ponto turístico de Porto Velho, capital de Rondônia, o som sai estridente dos alto-falantes de um dos muitos botecos instalados por ali: ''Veste a sua roupa e vai embora de uma vez'', diz a música, em ritmo de forró, que rola solta para a alegria de alguns casais que ''batem coxa'' em um salão praticamente dentro do rio. Ao lado está a zona portuária, da qual partem e chegam os barcos e balsas, que gastam no mínimo três dias para fazer o percurso Porto Velho-Manaus.
À primeira vista, a capital rondoniense parece viver uma realidade muito distante das cidades do Paraná, que estão a milhares de quilômetros. No entanto, os dois Estados têm um forte parentesco. Muitos dos 52 municípios de Rondônia, inclusive Porto Velho, tiveram a colonização impulsionada a partir da década de 1960 por paranaenses que foram em busca de um propagado eldorado por parte do Governo federal.
Ainda hoje, o fluxo de gente que vai de cá para lá é intenso. A via rodoviária é a preferida. Não é por acaso que a linha de ônibus mais longa partindo de Londrina, sem a necessidade de baldear de veículo, vai até Porto Velho. A viagem sai por R$ 305. De avião, o valor é bem maior: pelo menos R$ 1,4 mil. A viação que opera a linha é a Eucatur, empresa de Cascavel (Oeste do Paraná) que aproveitou a onda de migração de sulistas para Rondônia e passou a correr esse trecho em 1972. Dois ônibus - que partem de Criciúma (SC) ou Curitiba - saem diariamente da Rodoviária de Londrina.
Encarar essa parada não é moleza. A sensação de tédio é enorme, afinal são mais de 40 horas em uma poltrona. Porém, mais do que o tédio, esse é o ''expresso da saudade''. Entre os passageiros não faltam lamentações por conta da tristeza de deixar alguém para trás. Os viajantes que dividiram o ônibus com a reportagem são gente já estabelecida no Estado do Norte e que volta ao Paraná para ver os parentes que ficaram para trás, que não encararam a aventura da migração.
Buraqueira
Já com o pé na estrada, depois que deixa o Paraná o ônibus segue pelo Oeste paulista até o Mato Grosso do Sul, onde o fuso horário é de uma hora a menos em relação a Brasília. Vencidos os 2,5 mil metros da ponte sobre o Rio Paraná, que separa Presidente Epitácio (SP) de Bataguassu (MS), começa um dos dois trechos do percurso que está entre os 10 piores do Brasil na classificação do Guia Quatro Rodas. É difícil percorrer os 150 km da BR-267 até Nova Alvorada do Sul (MS). A coisa também fica feia mais para frente, na BR-364, entre Alto Araguaia (MT) e Rondonópolis (MT), em um trecho de quase 200 km.
As paradas são várias, mas rápidas. A maioria é para embarque e desembarque de passageiros. Nessas, o problema é a confusão com as malas. Esticar as pernas para valer só quando o ônibus estaciona para almoço ou jantar. O tempo é de meia hora para cada refeição. Para quem não consegue passar praticamente dois dias sem tomar banho, a solução é sacrificar uma das refeições e aproveitar a parada para rever o chuveiro. A maioria das rodoviárias do caminho, ainda que desajeitadas, oferecem a possibilidade de banho por R$ 2.
Voltando à estrada, entra-se no Mato Grosso do Sul pelo Leste e se vai até o Centro do Estado, chegando à capital Campo Grande. Dali são mais 350 km pela BR-163 rumo à divisa com o Mato Grosso, Estado quatro vezes maior que o Paraná e que presenteia o viajante com quase mil km de estrada - pelas BRs 364, 070 e 174 - a serem vencidos, de Sul a Oeste, até a divisa com Rondônia.
A primeira cidade de Rondônia é Vilhena, que tem o terminal rodoviário ''Portal da Amazônia'', um dos mais ajeitados do percurso. Mais uma vez é preciso atrasar o relógio. O destino final, Porto Velho, ainda está a mais de 500 km na região Norte do Estado.
Os que embarcaram em Londrina, às 4h30 de uma segunda-feira, vão descendo a cada ponto de parada: Pimenta Bueno, Cacoal, Presidente Médici, Ji-Paraná, Jaru... Em cada uma dessas cidades, é fácil constatar a presença de paranaenses. Letreiros indicam: Distribuidora Curitiba, Farmácia Maringá, Hotel Paraná... Na rodoviária de Porto Velho, o relógio marca 1h30 (3h30 de Brasília) da quarta-feira quando o ônibus estaciona pela última vez.

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