Maigue Gueths
De Curitiba
Um total de 35 despejos, 20 ameaças de morte, 173 trabalhadores presos, seis torturados e dois assassinados. Estes números fazem parte de levantamento feito pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), que mostra que o Paraná fechou 99 como o estado mais violento na relação e repressão aos sem-terra. O levantamento indica também que, no ano passado, foram feitas mais prisões (173) do que nos quatro anos anteriores do governo (137). Desde janeiro deste ano, o número de prisões já chega a 102, de acordo com o movimento.
Segundo o MST Nacional, até mesmo em estados como Pernambuco e São Paulo, que tiveram grandes conflitos agrários em 99, a repressão governamental não foi tão grande. O Paraná prendeu cinco vezes mais sem-terra do que Pernambuco, onde houve 33 prisões e sete vezes mais do que em São Paulo, com 25 prisões. Muitas destas prisões aconteceram sem mandado, tanto que a maioria foi solta em seguida. Alguns, entretanto, chegaram a ficar até 70 dias na prisão.
Em número de trabalhadores assassinados, o Paraná conseguiu passar à frente de estados com tradição violenta, como o Pará, Mato Grosso do Sul, Paraíba e Pernambuco, onde aconteceram uma morte em cada um, contra duas aqui. O levantamento aponta, ainda, mais duas tentativas de assassinato no Estado.
‘‘Estes números são assustadores. Comprovam a forma como o governo vem tratando a questão agrária, que deixou de ser um problema do Incra e do governo para parar nas mãos da polícia’’, diz Ubiraci Stesko, diretor estadual do MST. Ele lembra que grande parte das ocorrências aconteceram nos meses de abril e maio, quando o governo realizou uma megaoperação de despejos em fazendas ocupadas na região Noroeste.
Dos 35 despejos, 17 foram neste período, quando foram registradas, também, 43 prisões. Na época, representantes do MST apontaram a juíza Elisabeth Kharter, do município de Loanda, como uma das responsáveis por este processo, por conceder parecer favorável aos pedidos de reintegração de posse ajuizados pelos fazendeiros, independente da área ser improdutiva ou não. Na região, existiam 45 mandados de reintegração de posse determinados por ela. A amizade da juíza com os fazendeiros acabou sendo comprovada na noite de 6 de maio de 99, depois que seis mandados já tinham sido cumpridos. Confundindo um repórter com um policial, a juíza o parabenizou pelo ‘‘trabalho para meus amigos fazendeiros’’.
O MST também acusa o governo de usar o serviço secreto da Polícia Militar (P2) para vigiá-los, perseguição política e uso de escuta telefônica nos escritóprios do MST e de suas lideranças, feitas pelo Serviço Reservado de Informações da Secretaria de Estado da Segurança. O MST entrou com representação no Tribunal de Justiça contra a escuta nos telefones e a divulgação do seu conteúdo pelo secretário da Segurança, Cândido Martins de Oliveira.Levantamento mostra que no ano passado, Estado prendeu mais agricul tores do que SP e PE, onde aconteceram grandes conflitos agrários
Arquivo FolhaCONTRA A VIOLÊNCIAIntegrantes do MST carregam caixões durante protesto realizado em agosto de 99, em frente ao Tribunal de Justiça