80 ANOS - Ingleses viram modelo para Londrina em 1921
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Widson Schwartz<br>Especial para a FOLHA 
"Nasce Londrina. Criada por uma companhia colonizadora no meio de uma mancha de pequenas propriedades, ela floresce admiravelmente. Deixa para trás, mortas, dezenas de cidades antigas, imersas na miséria latifundiária." Eis a certidão assinada pelo antropólogo Darcy Ribeiro em sua cronologia do Brasil no século 20. Embora tenha usado o gênero feminino, refere-se ao município, criado e instalado em 1934 (a 3 e 10 de dezembro), não à fundação da cidade na floresta, em agosto de 1929.
O patrimônio convertido em sede municipal tinha só cinco anos, uma clareira em expansão, com 554 casas e 1.346 moradores conforme estatística ou acima de 2000 por estimativa. Aos 80 anos, o município tem 543 mil habitantes, 97,4% urbanos, a quarta maior população ao sul do País. À exceção das cidades projetadas para serem capitais, edificadas com dinheiro público, nenhuma cresceu e se modernizou igual a Londrina no mesmo tempo.
A colonização obedeceu a um planto "inspirado no êxito de um trabalho do inglês James Mellor e o escocês Robert Clark, entre 1910 e 1920, numa área de 40 mil alqueires em Birigui, noroeste paulista", segundo Gastão de Mesquita Filho. E João Domingues Sampaio, ao receber o título de cidadão honorário londrinense (1967), expôs que administrara empreendimento quase igual: "Firmou-se no meu espírito a ideia de colonizar e desenvolver esta maravilhosa região [o Norte Novo de Londrina] valendo-me da experiência realizada por mim na bacia desconhecida do Rio Tibiriçá, zona noroeste do Estado de São Paulo, onde promovi a divisão de 84 mil alqueires, fundei a Companhia Cafeeira do Rio Feio e cooperei na fundação de algumas cidades".
Sampaio fora assessor de lorde Lovat e presidente da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) de 1925 a 1944.
"Birigui que, em 1908, era uma chave de estrada de ferro onde não parava guarda que não fosse trucidado pelo caingangue, de tal modo progredira que já em 1917 era distrito de paz, uma cidade com escolas, luz elétrica e terrenos valorizados", relata Fernando de Azevedo em "Um trem corre para o Oeste". Aos 93 anos, Biriguí tem 115 mil habitantes e a economia fortalecida por indústrias.
Infere-se que a população seja proporcional à área colonizada, 60 mil alqueires (e não 40 mil citados por Mesquita), abrangendo parte da vizinhança; 530 km² é a área do município.
INÍCIO
Primeira célula numa área de 515.017 alqueires, Londrina ampliou o modelo e a "multidão cosmopolita" que Arno S. Pearse conheceu em Birigui em 1921 e lorde Lovat, em 1924.
De março a setembro de 1921, a Missão Internacional do Algodão conhece oito Estados produtores (SP, MG, BA, AL, SE, PE, PA e RN), mas o interesse por Birigui vai além da cotonicultura: já estão ocupados 32 mil alqueires, em pequenos e médios lotes, por 1.700 famílias mobilizadas pelo café. A maioria é de imigrantes: 40% italianos, 30% japoneses, 25% espanhóis. As demais se compõem de alemães, poloneses, austríacos, franceses, americanos, portugueses e brasileiros.
"Nosso principal objetivo em visitar Birigui era se familiarizar com o trabalho da Companhia de Terras, Madeiras e Colonização de São Paulo, cujo responsável técnico é o senhor Robert Clark, escocês há muitos anos no interior do Brasil", relatou Arno S. Pearse, secretário-geral da Federação Internacional de Algodão Superior e Indústrias Associadas (The International Federation of Master Cotton Spinners and Manufactures Associations Manchester), patrocinadora da Missão, com a sede em Manchester, Inglaterra.
O engenheiro Robert William Clark tornara-se o único dono da Companhia, que fundara em 1912 com o inglês James Mellor, Manoel Bento da Cruz e mais sete brasileiros.
Simon Joseph Fraser, 16º lorde Lovat, presidente da Sudan Plantation Syndicate (a empresa do algodão sudanês), integra a Missão Montagu, que chega ao Brasil em janeiro de 1924, para discutir o endividamento do Brasil com bancos ingleses e sugerir ações governamentais.
Particularmente, Lovat distingue oportunidade para o seu grupo de investidores, inerente à pretensão do governo paranaense de expandir a cafeicultura via colonização. O modelo é Birigui, pela divisão, infraestrutura e publicidade dirigida.
Fotografia no livro Londres, Londrina (de José Joffily) permite supor que Robert Clark apresentou Lovat a Juca Marcondes, no que seria o primeiro contato para negociar os 350 mil alqueires na margem esquerda do Tibagi concedidos pelo Estado à Companhia Marcondes. Os três aparecem na frente de um rancho beirando o Paranapanema, com outras pessoas. Clark explicara a Lovat que já não dispunha de grandes áreas em Birigui e "sugeriu que ele fosse ao Norte do Paraná, onde encontraria boas terras (
) em zona ainda não explorada", relatou Fernando Clark Soares, neto e biógrafo de Robert.


