70 pessoas podem ter morrido à espera de UTI
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de dezembro de 2005
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Pelo menos 70 pacientes que esperavam por leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no Hospital Universitário de Londrina (HU) podem ter morrido em 2005.
Os números não são oficiais, mas foram apontados pelo diretor clínico do hospital, Sinésio Moreira Júnior, ao comentar as afirmações do promotor dos Direitos e Garantias Constitucionais, Paulo Tavares que, em entrevista à Folha, disse que a direção do HU tem se negado a informar esse levantamento. O promotor considera os números necessários para a conclusão do procedimento administrativo que apura mortes por falta de vagas em leitos de alta complexidade na cidade.
No mês de outubro, Tavares ouviu a médica chefe da divisão de UTI Adulto do HU, Lucienne Queiroz Cardoso, que teria afirmado que o hospital mantém registros de todos os pacientes que morreram enquanto esperavam por uma vaga de UTI.
Ao ser questionado pela reportagem se o número de mortes seria maior que o apurado no primeiro semestre, o diretor clínico confirmou:''Seria maior, sem sombra de dúvida''.
A reportagem insistiu na pergunta e o diretor clínico apresentou uma estimativa: ''Por volta de 70 pessoas''.
Ao ser questionado sobre o mesmo número, o promotor Paulo Tavares considerou a informação extremamente grave, o que justificaria a ampliação do setor de UTIs do HU.
Segunda-feira passada, as atenções da mídia e da sociedade se voltaram novamente para o problema depois da notícia da morte de Ana Lanza, 78 anos, que estava à espera de uma vaga de UTI no hospital. Outros oito pacientes estavam com ela na fila.
''É bem provável que entremos com uma ação na próxima semana. Isso já teria acontecido se o HU tivesse repassado as informações que preciso. A demora dificulta a finalização da investigação, mas as provas que temos são contundentes'', acrescentou Tavares.
Para Moreira Júnior, um dos fatores que aumentam a superlotação constante da UTI do hospital é o critério de resolução. ''Nossos casos são de alta complexidade, gravíssimos e de um custo alto. Temos já claro que pacientes extremamente graves e de custo elevado, normalmente, permanecem no HU'', comentou.
Para ele, não fosse a capacidade, o cuidado e esforço físico de médicos, técnicos e auxiliares de enfermagem, mais pacientes já teriam morrido à espera de vagas na UTI. ''A gente sente orgulho dessa equipe de trabalho, do empenho de funcionários que não são intensivistas e se dedicam aos pacientes em estado grave e que, por falta de vagas, permanecem internados até no Pronto Socorro''.
Ontem à tarde, o Pronto Socorro (PS) do HU estava com 43 pessoas, quando a capacidade é para 38. Um paciente aguardava a liberação de um leito de UTI. O atendimento no Pronto Socorro cirúrgico estava suspenso.
O centro cirúrgico tem sete salas de cirurgia, sendo que seis estão em funcionamento, já que uma depende da reaparelhação.
A internação de pacientes nesse setor atrapalha a rotina do centro cirúrgico.
Moreira Junior desabafa: ''O que posso fazer diante dessa situação ?''.


