Pobre hoje em dia no Brasil não tem direito nem de morrer e descansar em paz. Em Londrina, os restos mortais de 642 crianças, jovens, adultos e idosos sepultados em covas cedidas pelo Município no Cemitério Jardim da Saudade (Zona Norte) serão exumados a partir de agosto porque os familiares não tiveram recursos para adquirir um jazigo definitivo. As ossadas serão acondicionadas em sacos plásticos e depois depositadas no ossário público.
A FOLHA conversou com duas famílias que recorreram aos terrenos cedidos pela Prefeitura no Jardim da Saudade e hoje estão passando pelo drama de ver as ossadas de seus familiares misturadas a outras tantas em um ossário. A estudante Sandra de Fátima Ferreira de Souza, 41 anos, contou que sua mãe, Geni Rodrigues, lutou contra um câncer por anos até que no dia 12 de setembro de 2002 sucumbiu à doença. A filha relembrou que à época a maior parte dos familiares estava sem emprego e ainda tinha que bancar os gastos com o tratamento da mãe.
Hoje em dia, continuou Sandra, a situação financeira da família é um pouco melhor mas continua insuficiente para custear a compra de uma sepultura definitiva. ''Quando minha mãe faleceu, a gente não tinha o terreno e precisamos dessa ajuda da Prefeitura. A gente sabia que como era um terreno emprestado tínhamos um tempo para regularizar, até porque eles precisariam do terreno para colocar outros corpos'', admitiu. A filha só criticou o fato de não ter recebido nenhum comunicado da Acesf informando o custo e os prazos para a regularização.
A diarista Luciana de Souza Lourenço, 34 anos, também foi surpreendida com a notícia de que os restos mortais do tio, Vicente Carvalho da Silva, serão exumados. Um fim triste para um homem que dedicou a vida para cuidar de duas irmãs. Não casou, não teve filhos e mantinha a casa com uma pensão de um salário mínimo até ser levado por um câncer. ''Ver os restos de uma pessoa querida da família serem jogados num lugar desses é uma coisa muito dolorosa'', lamentou a diarista. ''E o pior é que a gente ainda não tem como comprar um terreno'', completou.
O superintendente da Administração de Cemitérios e Serviços Funerários (Acesf) de Londrina, Oswaldo Moreira Neto, argumentou que a medida é necessária para liberar espaço no cemitério, que ainda tem 1,8 mil vagas disponíveis. Na área serão construídos blocos de urnas de alvenaria. Por mês, são pelo menos 35 óbitos de pessoas carentes que não dispõem de terrenos em nenhum dos cemitérios da cidade.
A exumação dos restos mortais das 642 pessoas sepultadas entre janeiro de 2001 e dezembro de 2003 em terreno público está respaldada por um decreto municipal de 1996, que estabeleceu o prazo de três anos para as famílias dos mortos adquirirem uma sepultura definitiva. ''Algumas pessoas tiveram mais de seis anos para comprarem um terreno e foram comunicadas diversas vezes. Portanto, não faltaram oportunidades e, conforme o decreto, elas perderam o direito sobre os restos mortais, que agora serão exumados, e não podem mais regularizar a situação'', apontou Neto.
Das 650 famílias (71 urnas eram de membros e peças cirúrgicas) convocadas pela Acesf, apenas oito (ou 1,2% do total) conseguiram pagar os R$ 719,00 exigidos, uma procura bem abaixo do que a registrada no ano passado, quando 40 famílias de um universo de 510 compareceram à Acesf e adquiriram terrenos. ''Historicamente, sempre foram poucas pessoas que conseguem regularizar. Para quem não tivesse condições, havia a possibilidade de facilitar o pagamento pois não podíamos abrir exceções'', comentou.
O superintendente adiantou que a Acesf vai começar a exumar os restos mortais das 642 valetas, provavelmente a partir de agosto. O procedimento será realizado de acordo com a necessidade do cemitério e sempre com ciência da família.

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