50 anos de amizade na Vila Brasil
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sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Viviani Costa<br>Reportagem Local 
Londrina Todos os caminhos levaram José Rodrigues Andrade e Raphael Safra à Vila Brasil, bairro da região central de Londrina. No começo, a terra vermelha incomodava o jovem José. Os morcegos, os percevejos e as cobras que invadiam a casa, nem tanto. A rotina de trabalho no comércio era desgastante, mas ele resolveu sujar os pés de barro e ficar por aqui. O aposentado nasceu em Bauru e passou a infância na cidade de Cabrália Paulista, interior de São Paulo. Ele chegou a Londrina aos 22 anos acompanhado do tio que já morava na Vila Brasil, um dos primeiros bairros da cidade.
Em 1961, cercas frágeis delimitavam os terrenos das antigas casas de madeira rodeadas por pés de café. "Tinha um riozinho ali onde fica a Via Expressa. Às vezes eu descia lá para caçar rã. Do outro lado do rio (em direção ao aeroporto) era tudo chácara", contou, apontando para a região leste. O primeiro emprego foi na antiga loja de calçados Casa Ideal. O vendedor também ocupou outras funções em uma fábrica de vidro da região.
José percebeu em Londrina uma terra de oportunidades, inclusive no amor. A chegada do circo movimentou a cidade na década de 1960. A trupe se instalou em um terreno onde hoje funciona um supermercado na Avenida Bandeirantes. Uma moça da plateia chamou a atenção de José. Ele decidiu se aproximar e percebeu que a "briga seria boa". "Se for pra ter um namoro sério, você pode me levar em casa. Se não for, é melhor ficar por aqui mesmo. Foi essa a nossa primeira conversa", recordou. Para a surpresa do jovem, a futura namorada morava no mesmo bairro.
Ele assumiu compromisso sério e enfrentou a mãe de dona Aparecida. "A gente só se via uma vez por semana, durante uma hora, e sentava bem longe no sofá", explicou. Após sete meses, o romance resultou em casamento. Foi quando o aposentado conheceu Raphael Safra, amigo da família de dona Aparecida.
Nascido no interior de São Paulo, Raphael chegou ao Paraná em 1939. Aos 17 anos, foi morar com a família em um sítio próximo a Tamarana (Região Metropolitana de Londrina). O pai morreu um ano depois. A vida como lavrador não foi fácil. "Eu tocava uns 100 porcos lá do sítio até Londrina. Vinha a pé com Danúbio, o cachorro que me ajudava a trazer a porcada (sic). Naquele tempo, a gente demorava até 17 dias para terminar o caminho. Só o porco gordo era bom para venda, mas eles andavam muito devagar. A gente parava nos sítios dos compadres para dormir", relatou.
Quando Raphael trocou o campo pela Vila Brasil, em 1958, passou a ganhar a vida como carroceiro. Ruana, a primeira mula, o ajudava a transportar mudanças, sacas de café e outros produtos. "Eu percorria um trecho como se fosse de Ibiporã a Cambé todos os dias. Levava e trazia muita coisa para aqueles vagões da estação de trem ali no centro", destacou. Depois de Ruana, os cavalos Gaúcho e Maneiro e o burro Pinhão também ajudaram nos trabalhos. "O pessoal pagava bem. Eu recebia mais de mil Cruzeiros por dia, dependendo do serviço", contou. O aposentado trabalhou como carroceiro durante 11 anos.
No casamento de Aparecida e José, Raphael mandou matar três vacas para a festa no sítio. A amizade nasceu ali e faz parte da história do bairro. A uma quadra de distância, os moradores frequentaram a casa um do outro durante muitos anos até que Raphael trocou a vizinhança pelo emprego de caseiro na chácara de João Fuganti. Tempos depois, ele retornou à Vila Brasil. O gosto pelo bairro foi repassado de geração em geração. Filhos e netos dos dois amigos também moram por ali. Os que mudaram de cidade ou de região retornam sempre que possível.
José tem 75 anos. Raphael está prestes a completar 92. A dupla bem humorada preferiu não revelar todas as aventuras pelas quais passaram juntos. Corado e com vergonha, Raphael apenas contou uma piada. A ousadia de José e a experiência de Raphael se completam. "Temos muito respeito um pelo outro e muito amor. Por isso a amizade dá tão certo", disseram.


