Curitiba - A Delegacia da Mulher de Curitiba registra todos os meses 900 casos de violência doméstica, o equivalente a 30 ocorrências por dia, sendo que a média de prisões em flagrante é de duas por dia. Em Londrina, apenas no mês de julho foram instaurados 85 inquéritos policiais de agressão doméstica e mais 40 ocorrências estão sendo averiguadas.
Após o boletim de ocorrência na delegacia, cada caso é avaliado. Se a vítima ou os filhos correm algum risco, eles são encaminhados para uma casa-abrigo, onde recebem moradia, comida e pedagogas auxiliam na educação das crianças. Após um mês de negociação, a reportagem da FOLHA teve autorização para visitar o local onde as mulheres agredidas ficam em Curitiba. O endereço não pode ser divulgado para preservar a segurança dos que vivem lá.
A casa consegue abrigar 30 pessoas. Quando a reportagem esteve no local, cinco mulheres e seus filhos estavam lá. Uma delas é Lúcia, 32 anos (o nome de todas as entrevistadas foi alterado para preservar a identidade das vítimas). Ela e os cinco filhos estão no local há um mês. Durante nove anos, Lúcia viveu com o marido em ambiente tranquilo. Há quatro anos eles resolveram casar no papel e tudo mudou. Ele começou a fumar crack e a beber bastante. A agressão verbal tornou-se frequente. O marido também começou a vender objetos de casa para comprar droga.
Quando o marido recebeu o salário e gastou todo o dinheiro com crack, Lúcia cansou e foi procurar ajuda. ''Ele chorou, pediu que eu voltasse, mas fui firme. A gente tem de ter opinião'', argumenta. Casar de novo? Nem pensar. O que ela quer agora é criar os filhos, arranjar um emprego e alugar uma casa. ''Pedi ajuda para o meu pai, mas ele é alcoólatra e não dá.'' Os filhos preferem morar na casa-abrigo a ver o pai fumando crack. Ele mora na casa que pertence a Lúcia, e deverá receber uma intimação para deixar o local.
Adriana, 32, estava na casa-abrigo há uma semana. Ainda meio perdida e muito abalada com o que passou, ela considera o marido um psicótico. Segundo a vítima, ele variava muito de humor. Se um dia estava bem e carinhoso, no outro ficava agressivo. ''Às vezes, ele me batia muito sem nenhum motivo'', desabafa. O agressor fumava maconha com frequência na casa.
A decisão de procurar ajuda ocorreu no dia 19 de julho. Adriana foi buscar o filho na escola de bicicleta. Na volta passou pelo mercado. Quando chegou em casa o marido já a aguardava no portão. ''Ele disse que eu demorei e quebrou móveis e me deu um tapa na cara que fiquei até tonta. Então disse para eu arrumar a casa, que quando ele voltasse era para estar tudo pronto'', lembra.
A mulher foi até a Delegacia da Mulher de Curitiba fazer um boletim de ocorrência e passou um tempo em outra cidade. Durante esse período, o marido foi atrás da família dela e agrediu a sogra, a cunhada e um sobrinho.
O casamento durou 15 anos. Agora, Adriana procura um emprego para poder se manter e sair da casa-abrigo. Além disso, vai procurar ajuda para tomar medidas protetivas, como pensão, afastamento domiciliar do acusado e proteção para ela, o filho e os familiares. Com isso, o marido é obrigado a estabelecer distância mínima das vítimas.
O prazo máximo que as famílias podem permanecer na casa-abrigo é três meses, mas, dependendo da gravidade, podem ficar mais tempo. Filhos até 16 anos podem acompanhar as mães. A residência abriga mulheres de até 60 anos.

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