Esqueça aquela ideia do idoso que, aposentado, passa os dias de pijama numa cadeira de balanço. Com uma população vivendo cada vez mais e melhor - no Brasil, por exemplo, a expectativa de vida pulou de 62 anos, em 1980, para 73, hoje - é cada vez mais comum encontrarmos sessentões, setentões, oitentões, noventões que estão quebrando a rotina e vivendo uma intensa terceira idade, com novos projetos e concretizando sonhos guardados por toda uma vida.
Quando criança, Jandira Testa, 74 anos, costumava recortar da revista ''Cruzeiro'' as fotos das atrizes hollywoodianas. Aos 53 anos, viúva, e com os filhos já casados, Jandira começou a participar de uma oficina de teatro para idosos. Lá se vão 21 anos de história na Cia. de Theatro Fase 3, uma das companhias há mais tempo em atuação contínua no país - 23 anos.
''Estava me sentindo muito sozinha e comecei a ter uns 'piripaques'. Uma amiga me convidou para participar do curso, porém, tímida, achei que não ia dar conta. Na estreia, a minha personagem não tinha fala. Eu simplesmente passava pelo palco segurando uma faixa. Hoje estou mais segura e extrovertida. Em 2006 protagonizei ''Ave Maria abençoe as velhas loucas pois tu o és também''. Foi a glória!'', relembra emocionada.
Utilizando a memória pessoal para dar corpo e alma às personagens, Jandira até perdeu as contas de quantas montagens participou. Além de atuar, também utiliza a vasta experiência de costureira para dar uns pitacos no figurino. A primeira viagem internacional de Jandira ocorreu com a companhia. Em 1999, o grupo foi convidado pelo governo alemão a participar de um festival na cidade de Colônia.
No ano passado, ela voltou a excursionar pela Europa, desta vez com destino à Dinamarca, para participar do festival ''Transit'', promovido pelo renomado grupo Odin Teatret, de Eugenio Barba. ''Remocei com o teatro. Sou tão feliz com o que faço que às vezes paro e penso que estou sonhando'', revela a aposentada, que tem uma agenda cheia graças às participações no teatro, coral da igreja, bailes e viagens.

Mundo novo

Bem-humorado, o dentista aposentado Danilo José Silvestri, 76 anos, começou a estudar informática porque sentiu que estava ''perdendo terreno'' para a esposa, já mais habituada com o mundo digital. ''No começo eu apanhei um pouco, mas os professores são muito bons; ensinaram-me até como segurar o mouse'', conta. A professora assegura que o aluno é dedicado e raramente falta às aulas. Silvestri já está no final do curso e fascina-se com a possibilidade de se comunicar instantaneamente pelo MSN.
''Também gosto de ler o noticiário, checar a previsão do tempo, visualizar minhas propriedades rurais no Google Earth e ler e-mails, mas bons e-mails'', ressalva. Com um computador novinho em casa, deseja, com a esposa, explorar este ''mundo novo'' que está se descortinando no monitor.

Fundo do mar

A vontade de superar os próprios limites sempre foi uma constante na vida de Alice Cardamone Diniz, 60 anos. Curiosa por saber como era a vida embaixo da água e disposta a superar uma síndrome do pânico, não pensou duas vezes em se matricular ano passado em um curso de mergulho. ''Tive um pouco de dificuldade para aprender a mergulhar. Com medo, tinha taquicardia, falta de ar, naúsea. Mas o professor ajudou com técnicas de relaxamento... também me questionava - ''se os outros conseguem por que eu não posso conseguir?'', relembra.
Três meses depois, o batismo ocorreu em Paraty, litoral sul do Rio de Janeiro. ''Fiz seis dos cinco mergulhos programados. Foi lindo ver e sentir aquela serenidade, quietude, harmonia no fundo do mar. É o encontro com Deus'', define.
Alice retomará as aulas neste início de ano para mergulhar em águas mais profundas - Fernando de Noronha. Outro sonho - este acalentado por toda uma vida - o de voar - será concretizado este ano. ''Quero saltar de parapente ou asa-delta. Quando você está realizando o seu desejo o que menos pesa é a idade'', revela, comprovando que se pode ser feliz em qualquer idade.

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