Se você acha que já viu tudo da vida, imagine quem nasceu há pouco mais de um século. Gozando de boa saúde, dentro das limitações comuns à idade, alguns centenários que vivem em Londrina e Cafeara (Norte) superaram as próprias expectativas de vida e, por isso, têm prioridade na fila dos desejos a serem atendidos em 2013.
Tudo isso porque de história e previsões eles entendem muito bem, já que presenciaram grandes fatos em nosso país. Para se ter uma ideia, eles já brincavam quando aconteceu a primeira partida de futebol feminino, assistiram à primeira telenovela diária, ouviram comentários sobre o lançamento do primeiro satélite artificial brasileiro e se surpreenderam quando, em Salvador (BA), foi implantado o primeiro marca-passo no país.
E se depender das estimativas, nos próximos anos a população acima de 60 anos continuará crescendo e muitos brasileiros terão vida longa. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 1991 para 2011, o número de idosos dobrou, saltando de 10,7 milhões de pessoas para 23,5 milhões e, naturalmente, a estatística continuará subindo.
Mas para quem já viu e vivenciou tantos fatos, quais são os maiores desejos para 2013? A FOLHA reencontrou três centenários que já foram entrevistados e constatou que, apesar do passar do tempo, a vida continua a surpreendê-los quanto a expectativa de vida.
''Nunca imaginei que passaria dos 100 anos. O tempo passa muito rápido. Vi essa cidade crescer e graças a Deus consegui realizar meu desejo de educar todos meus filhos'', comenta Maria Adam Caldana, que no dia 3 de janeiro completará 103 anos.
Apesar de tantos anos vividos, Maria preserva uma memória invejável. Fala em datas e contabiliza o número de netos e bisnetos. A pioneira, que chegou a Londrina no mesmo ano de fundação, recorda também do quanto se dedicou ao cultivo de café, ''carregando sacos pesados nas costas''. Mas de toda essa vivência, Maria afirma que a única dedicação permanente é a fé em Deus.
Ao receber a equipe em casa, no centro de Londrina, Maria segurava um terço na mão, colorida pelas unhas vermelhas, sinal da vaidade assumida desde adolescente. ''Nunca faltava às missas, principalmente na época de fim de ano. Adoro o Natal e o tenho como um dia santo. Eu fazia questão de reunir toda a família em casa para celebrar'', conta a centenária, que para o Ano Novo, planeja rezar muito em prol de todos os londrinenses. ''Desejo que todos sejam felizes, mais unidos e que Deus abençoe os trabalhadores'', declara.
Na periferia da zona sul, a paulistana Carolina Ribeiro de França, de 102 anos, é a prova de que os bons hábitos são a fórmula da longevidade. Em casa, ela começa a entrevista contando que nunca fumou, não gostava de bebida alcoólica, sempre se alimentou bem e nunca foi sedentária. ''Até ano passado, eu saía de casa e cuidava da horta'', conta Carolina, que foi uma das primeiras moradoras do Jardim União da Vitória.
Com boa saúde, Carolina viveu sozinha até os 100 anos. Hoje, conta com a ajuda da filha, que revela não planejar nenhuma festa especial na virada do ano, já que a mãe também não faz questão. Para Carolina, o único desejo para o ano que se aproxima é aquilo que sempre a manteve ativa e com mais de um século de vida.''Desejo que todos tenham sempre muita saúde. É isso que importa'', diz, abrindo um sorriso tímido.
No município de Cafeara (norte central), o imigrante Toshio Saneshigue está prestes a completar 101 anos, vividos sob muitas lembranças da terra natal, o Japão. Mas apesar dos costumes e dos programas televisivos assistidos em japonês, Toshio se diz brasileiro, com muito orgulho.
Bem disposto, ele preza pelos programas que faz todos os dias: assistir programas de esporte na televisão e jogar ''shogui'', um xadrez japonês. ''Ajuda a manter a mente'', diz ele, que na virada do ano, ainda preserva o costume de comer ''moti'' (bolinho feito de arroz), que, segundo os japoneses, traz prosperidade.
Além da refeição, ele também faz uma oração diante do altar japonês montado em casa. ''É o primeiro pedido do ano e por isso vale para o todos os dias'', comenta, com ares de superstição. E fugindo um pouco do hábito, Toshio nos antecipa qual será seu pedido para 2013. ''Quero que todos tenham muita saúde e vivam sempre em família'', deseja.

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