200 crianças estão há uma semana no escuro
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quarta-feira, 11 de outubro de 2006
Vanessa Navarro<br> Reportagem Local 
Duas vezes vítimas - da crueldade de ladrões e do descaso da prefeitura - as 200 crianças do Centro de Educação Infantil (CEI) Avelino Vieira, localizado no bairro homônimo na Zona Oeste de Londrina, estão há uma semana na escuridão. A fiação elétrica foi furtada e o Município diz que não pode fazer nada.
Foi graças ao empenho e à solidariedade comunitários que os meninos e meninas com idades entre 4 e 6 anos puderam comemorar ontem o Dia das Crianças. Elas ganharam pão, suco e bolo, além de brinquedos. As doações vieram de empresários. Alheias à falta de luz, meninas como Michelle, 6 anos, comiam sorridentes. ''Gosto muito de estudar e brincar. Passo o dia todo aqui'', disse.
Michelle e os amigos ainda não têm idade para entender o que se passa na creche. ''Os ladrões vieram na quarta-feira passada e roubaram os fios do poste e a fiação que alimenta a escola. O pior é saber que provavelmente eles têm irmãos ou filhos estudando aqui. A gente se empenha, até se humilha para conseguir as coisas para a creche, e eles vêm tomar o que a gente faz para eles mesmos'', desabafou a diretora, Sônia Duarte.
Como ocorre em grande parte dos CEIs, o repasse da prefeitura não é suficiente para cobrir todas as despesas da creche do Avelino. Para bancar as folhas de pagamento, contas de água e luz, alimentos, produtos de limpeza e material pedagógico, a diretora vive em batalha constante. ''A gente só não pede ajuda para os pais, que são pobres. É gente do João Turquino, do Maracanã, do Londriville'', contou.
Às vésperas do furto da fiação elétrica, a creche havia recebido várias doações alimentícias, como carnes e laticínios. Para impedir que se estragassem, Sônia apelou para a vizinhança. ''Ela me pediu para trazer a geladeira da creche para minha casa. Não pensei duas vezes, pois a gente vê os problemas que eles enfrentam'', disse a aposentada Severina Tereza do Nascimento. Outra vizinha abriu as portas para um freezer cheio de iogurtes.
O mesmo apoio não foi encontrado na prefeitura. A diretora recorreu à Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld), proprietária do imóvel do CEI, mas recebeu a mesma resposta que vem sendo dada para todos os problemas na cidade: enquanto durar a greve, não tem jeito. O presidente da Cohab, Carlos Eduardo Afonseca, alegou que uma licitação está sendo feita para a reforma da creche e de outros imóveis localizados na mesma quadra. Só que o certame, feito em conjunto com a Secretaria Municipal de Assistência Social, estacionou junto com a paralisação dos servidores.
Questionado se não é possível tomar uma medida emergencial para tirar as 200 crianças do escuro, Afonseca declarou: ''A princípio não. A Cohab não tem orçamento para mexer nessas reformas. Até porque a creche não tem nenhum retorno para a Cohab.'' Para a comunidade, que também não tem retorno dos impostos que paga, resta esperar. No escuro.


