A acessibilidade nos processos construtivos é assunto constante na atualidade. A tendência, vinda dos países europeus, chega timidamente ao Brasil e tem contribuído na valorização dos imóveis. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que mais de 8 milhões de pessoas apresentam alguma dificuldade motora, o que justifica a adoção do novo conceito de construção de imóveis.
Apesar de todas as discussões, no Brasil, sob a ótica arquitetônica, o assunto ainda é tratado com muitas restrições e ressalvas, sem se interar por completo como vivem e quais são as reais necessidade de um portador de deficiências. ''Pouquíssimas são as pessoas que têm o privilégio de um banheiro, quarto, cozinha exclusivos para seu uso. Por isso, propõe-se a criação de espaços que permitam o uso das pessoas, indiscriminadamente, revertendo-se em maior conforto e segurança para todos'', pondera a arquiteta Luzia Favoreto, especialista em acessibilidade pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP).
As construções, na opinião dela, devem ser pensadas de forma que agregue benefício a todo público. ''Não existe uma conscientização democrática dos espaços. A entrada principal de qualquer estabelecimento, seja comercial ou residencial, por exemplo, deve ser único proporcionando igualdade de valores'', afirma.
Na arquitetura, os considerados ''usuários especiais'', são todos aqueles que apresentam alguma limitação de uso dos espaços, dos mobiliários e equipamentos, tanto urbano (coletivos) como individuais (domésticos e comerciais). ''Esta limitação inclui não só o manuseio puro desses usuários, mas sim a acessibilidade a eles e também a área adjacente necessária a sua utilização'', explica. ''Havendo uma conscientização de que todos nós poderemos vir a ser ''usuários especiais'' sem, contudo, termos a necessidade de nos locomover em uma cadeira de rodas, teremos maior afinco em pesquisar e projetar espaços integrados que possibilitem a utilização de todos. Só assim estaremos integralizando e não segregando o deficiente físico'', ressalta a especialista.

Casas funcionais


Tornar uma residência acessível dando possibilidade e condição de acesso, circulação, aproximação e eliminar qualquer desnível que possa existir é tarefa que, cada vez mais, deve ser incorporada às construções. ''A casa acessível prioriza sua funcionalidade não somente por atender portadores de deficiência. Ela é boa, especialmente, pelo processo de envelhecimento da população que vem aumentando'', afirma a arquiteta e gerontóloga Adriana de Almeida Prado, de São Paulo. Ela acrescenta que durante a vida um acidente pode ocorrer e a consequência disso pode resultar numa deficiência temporária ou definitiva.
Para ela, as portas de todas as construções devem seguir um tamanho padrão que supere 80 centímetros de vão livre para tornarem-se acessíveis. ''Essa medida permite o acesso em linha reta, por uma cadeira de rodas a um ambiente e a locomoção de um maior número de usuários'', diz. Em países europeus, complementa Adriana, as portas estreitas com tamanho menor que 80 centímetros não existem. ''Para comprar portas menores é preciso encomendar'', conta.
Um outro ponto que precisa de atenção quando o assunto é acessibilidade nos ambientes são os fios, que de forma alguma devem estar aparentes. ''A fiação pode ser uma armadilha para todas as pessoas e embutí-los é a melhor saída'', acrescenta Adriana.
O uso de tapetes não é descartado, opina a arquiteta, pois são peças que trazem aconchego e conforto térmico e acústico. ''Muito importante para quem está envelhecendo'', destaca. Porém é importante que sejam revestidos em borracha e estejam afixados por móveis. Acesso facilitado ao interruptor de luz e iluminação específica para deslocamento noturno também evitam acidentes. Corrimão em escadas, rampa e pega mão em degraus, são itens obrigatórios numa casa acessível.
As rampas e escadas, informa a especialista, devem estar adequadas segundo a ABNT/NBR 9050 (Norma da Associação Brasileira de Normas Técnicas). ''Quando os degraus são diferentes em altura e comprimento, isso parece óbvio mas não é, os acidentes ficam mais suscetíveis. Existem casas que possuem segmentos de escadas com tamanhos distintos o que facilita muito a queda'', enfatiza.
Para Luzia, a proposta de se resolver o problema focado, unicamente, em criar espaços especiais com equipamentos específicos para a deficiência apresentada, sem entender todo o diferencial de percepção e necessidades de um deficiente, é minimizar apenas parte de seus problemas. ''Questionar o que é ser um deficiente e transformá-lo em um usuário especial é , ao meu ver, uma das visões que diferenciarão a forma como a arquitetura pode vir a tratar e pensar sobre este assunto'', finaliza.
Bom exemplo


Antenado com a tendência, o arquiteto Marcelo Melhado, de Londrina, projetou uma casa seguindo o conceito de casa para todos.
A redidência de três andares, localizada num condomínio horizontal, na zona sul, conta com espaços amplos e ambientes integrados. A decoração contemporânea predomina, concedendo mais conforto e aconchego.
''A circulação da cadeira de rodas, por exemplo, é possível em todos os ambientes pela amplitude. A disposição dos móveis foi pensada exatamente para causar esse efeito'', explica Melhado.



Fotos: Olga Leiria

Imagem ilustrativa da imagem ACESSÍVEL - Casa para todos
Na entrada a rampa, que corrige o desnível do terreno, é seguida de degraus largos que, como uma plataforma, acomodam com tranquilidade uma cadeira de rodas. As portas com 1,20m de largura, propiciam abertura em 90 graus
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O lavabo recebeu cuba e bancada em blindex com altura compatível a de um cadeirante
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A garagem é dotada de elevador, com capacidade para o cadeirante e seu acompanhante
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Na cozinha a mesa também está adequada a um cadeirante. O laminado plástico faz um composê com a bancada em tecstone, composta por 90% de quartzo de alta resistência e função antibacteriana
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O gazebo ao lado da piscina assume tripla função, servindo de sala de massagem, fisioterapia e brinquedoteca
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Um dos banheiros não possui box e o piso tem leve desnível para evitar acúmulo de água. Nas paredes a base circundante garante o apoio em alturas diferentes. O ralo reto, rente à parede, possibilita total acesso da cadeira de rodas
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4 ambientes em 1: salas de visita, jantar, home e cozinha integradas favorecem a circulação