A partida do carro, o ronco do motor, o barulho frenético das buzinas no trânsito caótico das grandes cidades. Sons familiares para a maioria dos motoristas, esses sinais acústicos passam literalmente despercebidos entre um restrito número de condutores: os deficientes auditivos.
Dotados de um excelente senso de humor, os surdos são unânimes em afirmar que não sentem a menor dificuldade em dirigir, apesar do preconceito da sociedade, e encaram muito bem as adversidades do trânsito. A atenção, segundo eles, tem de ser redobrada. E os três espelhos retrovisores do carro servem praticamente como meio de observar e ''ouvir'' o que acontece ao redor.
''Quando estou dirigindo presto muita atenção na fisionomia do motorista que está logo atrás. Assim percebo, por exemplo, se ele está com pressa e quer ultrapassar'', conta o aposentado Niro José de Souza Filho, 46 anos, motorista há 10. Niro nunca bateu o carro, apenas se envolveu em um ''incidente'', quando atropelou um cachorro e ficou com o carro todo amassado.
No trânsito, obviamente, buzinas e malcriações de outros motoristas não são sentidas por ele, que diz também ficar nervoso quando alguém faz uma ''barberagem'' na sua frente. ''Nunca ofendi, nem fiz sinais grosseiros pra ninguém, mas buzino mesmo'', brinca Niro.
Alheio aos sons, o letreiro Romeu Clivati, 58, reforça que os ouvidos dos surdos estão nos espelhos. Para o deficiente auditivo, diz ele, a percepção está no olho. ''Quando vejo uma âmbulância ou um carro de polícia se aproximar com a sirene ligada já vou abrindo espaço'', acrescenta. Clivati, que tirou carteira de habilitação há mais de 30 anos, conta que o lugar mais difícil para dirigir é o centro da cidade.
Bem humorado o letreiro relata que quando faz alguma coisa errada no trânsito e percebe que o outro motorista está xingando, ele simplesmente coloca a mão no ouvido, fazendo o sinal de ''sou surdo'', e acaba achando graça de toda a situação.
De acordo com eles, quando dirigem os cuidados realmente devem ser redobrados, pois nem todos os motoristas reconhecem, através de adesivos indicativos expostos nos vidros do veículo, que se trata de um surdo na direção.
Um pouco mais jovem, mas com a mesma habilidade para dirigir, Fábio Orlando da Silva, 25, motorista há seis anos, afirma que apenas uma vez ficou apreensivo enquanto dirigia. ''Senti uma vibração diferente, mas não sabia o que estava acontecendo. Parei num posto de combustível e o atendente percebeu que estava faltando óleo'', lembra.
CNH - Se por um lado os surdos não sentem dificuldade em dirigir, a situação torna-se bastante diferente quando eles tentam tirar a carteira de habilitação. ''Eles têm problemas com a prova de legislação. O surdo não possue um vocabulário tão completo como o nosso, o conhecimento dele está bastante restrito à sua língua e cultura'', diz Elisabete Alves, coordenadora da Associação dos Deficientes Auditivos de Londrina (Apadal), que serviu de intérprete para a reportagem da Folha.
Conforme ela, os surdos sentem a necessidade de conhecer a palavra com seu significado na Língua Brasileira de Sinais (Libras). Por sua vez, a Apadal vem solicitando junto ao Governo Federal que sejam convocados intérpretes oficiais para atuarem nas Ciretrans eque possam ''traduzir'' as palavras das provas, sem que seja, obviamente, repassada as respostas, mas traduzida a prova em si.
De acordo com a coordenadora de habilitação do Detran, Maria Aparecida Farias, o candidato a habilitação tem que ser alfabetizado. ''Para providenciar um intérprete teríamos que consultar o Denatran para saber como esses candidatos seriam tratados. Mas não existe nada previsto em resolução que fale sobre o uso legal de um intérprete'', aponta. No Paraná, 4.542 motoristas surdos ou com algum grau de deficiência auditiva possuem carteira de habilitação.

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