Lá se vão quase oito anos desde que o novo Código de Trânsito Brasileiro (CTB) foi implantado. ''Aparentemente'' os motoristas responderam bem a algumas regras impostas pelo regimento, como o uso do cinto de segurança no banco da frente. Entretanto, convencer passageiros a colocar o equipamento no banco traseiro ainda é um grande desafio.
A preocupação com a segurança parece distante da maioria dos condutores de veículos entrevistados pela Folha. Sem nenhum receio, eles admitem que não exigem o uso do cinto pelos passageiros que andam no banco de trás de seus automóveis. Somente a possibilidade de multa os intimida, mas ainda assim afirmam que raramente respeitam essa regra do Código.
Na semana passada, uma blitz realizada por policiais da Companhia de Trânsito de Londrina (Ciatran) para verificar o uso do cinto de segurança, apenas reforçou essa constatação. Foram abordados 148 veículos, dos quais 43 transportavam passageiros no banco de trás. O resultado final apontou a falta do uso do dispositivo por 54 pessoas, sendo 5 condutores, 3 passageiros da frente e 46 traseiros - 25 adultos e 21 crianças.
Segundo o tenente responsável pela Ciatran, Izoel Pavan de Souza, a pequena amostra serviu para observar que ainda existe muita negligência por parte dos motoristas - principais responsáveis pelas pessoas que transportam nos veículos. Além disso, no que diz respeito à segurança dos passageiros, o resultado foi preocupante. ''Falta um pouco de conscientização, infelizmente muitos aprendem apenas quando são notificados. E o que eles precisam entender é que o uso do cinto não serve para evitar uma multa, mas sim evitar ou minimizar ferimentos em um acidente'', frisa o tenente.
Souza reforça que o CTB disciplinou condutores e passageiros da frente a colocarem o cinto de segurança, mas o uso no banco traseiro ainda é um grande desafio. Na blitz, 30 veículos foram notificados pela falta do uso do equipamento.
O médico especialista em medicina de tráfego, Marcos Antônio Pirito, é ainda mais objetivo e enfatiza que o equipamento pode inclusive impedir a morte de uma pessoa. ''Isso é visto diariamente com exemplos de acidentes nas ruas, mas também já foi avaliado em diversos 'crash tests' realizados por montadoras em todo o mundo'', assegura Pirito, também diretor científico da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet).
Ele destaca que em um impacto, ocorrido com o veículo a 40 km/h, por exemplo, o passageiro sem o cinto de segurança, é jogado para frente com o peso do corpo 50 vezes maior: uma criança de 20 quilos passa a ter cerca de uma tonelada. ''E se for analisar, o problema é muito maior, pois andamos a 80, 90, 100 km/h'', acentua o médico. Outro fator a ser apontado, conforme ele, é que carros equipados com air bags não dispensam o uso do cinto: um completa o outro.
A preocupação de médicos da Abramet intensifica-se por dados não oficiais que chegam até a entidade, revelando a falta do uso do equipamento por passageiros transportados no banco traseiro. Quem senta atrás, acrescenta Pirito, não está em hipótese alguma menos suscetível a sofrer com os impactos. Pelo contrário: ''sofrem lesões tão ou mais graves do que os passageiros da frente, como fratura cervical e lesões de crânio''.
Segundo o especialista, as crianças são as mais prejudicadas, pois sem o cinto transformam-se em ''objetos soltos dentro do automóvel''. ''Crianças de até 10 anos são as que mais andam soltas no banco traseiro. E isso é o mais errado. Os prontos-socorros estão começando a relatar o fato e a preocupação com os acidentes tem se tornado ainda maior'', lamenta Pirito.
Para ele, usar o cinto é uma questão de consciência. Lamentavelmente a regra só é aprendida depois de uma punição: seja a dor de ver uma pessoa querida ferir-se em um acidente e até morrer, ou após uma notificação. Nesse sentido, ele informa que a Abramet direciona boa parte de suas campanhas educativas para orientar e mostrar aos motoristas e passageiros que o cinto é um equipamento de segurança fundamental. O mesmo acontece em Londrina, através da Ciatran, que realiza palestras em escolas e empresas, além de instruir os motoristas durantes as blitze.
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