Um ícone da infância
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de agosto de 2015
Cecília França<br> Reportagem Local 
O caminhoneiro Walter Ávila, 54 anos, de São Sebastião da Amoreira (Norte Pioneiro), não é um colecionador tradicional de carros antigos. Ele, ao invés de uma garagem cheia de raridades, se dedica a preservar apenas um ícone da infância: o Jeep Willys 1963. A ligação de Ávila com o veículo, símbolo de bravura desde o seu surgimento no Brasil, em 1954, remonta os passeios no tempo de garoto.
"Em 1961, meu avô comprou um Jeep Wyllis, mas, em 1967 acabou vendendo. Em 1981 eu comprei o meu, sou o segundo dono dele", detalha o caminhoneiro. Ávila conta que a família morava na zona rural, onde o jipe ajudava a superar o terreno ruim. Segundo ele, a paixão pelo modelo não tem uma explicação lógica, "é coisa de sangue".
"Ele é ruim de câmbio, de freio, mas eu já nasci praticamente dentro de um jipe", compara. A dificuldade de pilotar um veículo como o Jeep Willys decorre de várias características, como a direção pesada e com a tradicional "folga" (quando ocorre um curso do volante antes que as rodas estercem de maneira efetiva), a ausência do retrovisor interno e o difícil entendimento das três alavancas presentes no console.
"Quem sai de um carro hidramático hoje não consegue nem engatar", decreta Ávila. Quanto às três alavancas, tratam-se do câmbio de três marchas, do controle da tração 4x4 e do acionamento da reduzida. O caminhoneiro preserva o motor original do jipe, um seis cilindros de 2.638 cilindradas e 90 cv de potência. A lataria foi pintada pelo dono anterior de um verde escuro, próximo do original. Ávila diz que não tem gastos nem dificuldade para manter o veículo.
"O desgaste acontece só se judiar muito, mas eu não ando tanto, então, ele não dá problema", afirma. Ávila comenta que os colecionadores de São Sebastião ajudam uns aos outros na manutenção dos carros e indicam peças para reposição quando encontradas. O caminhoneiro utiliza o Jeep apenas para passeio, em beiras de rio, sempre em contato com a natureza. Quando questionado sobre o que sente a bordo do veículo, Ávila é direto: "Muita liberdade".
O Jeep Willys está na memória de muitos brasileiros que viveram nas décadas de 1950 a 1970, especialmente na zona rural e em cidades de interior. Criado para atender o exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, o modelo começou a ser montado no Brasil em 1954, pela Willys Overland do Brasil, que deu início à produção nacional três anos depois.
A partir de 1959 a Willys nacionalizou, também, o motor de seis cilindros e as linhas da carroceria sofreram alterações, ficando mais arredondadas. Por fora, o modelo 1963 de Ávila recebeu lanternas adicionais; por dentro, continua praticamente original, com as cores do estofamento preservadas e os marcadores da época.
No painel, uma placa fornece informações relevantes sobre a posição das marchas e as velocidades sugeridas para cada um delas. Ao centro, a inscrição "Willys Overland Motors, Toledo, USA", endereço da fábrica de peças da montadora. Durante seu tempo de fabricação, o Jeep sofreu poucas modificações, sendo a mais significativa em 1976, quando trocou o motor seis cilindros por outro de quatro, e câmbio de quatro marchas. O conjunto trouxe melhor desempenho e economia ao jipe, que foi fabricado aqui até 1982.
No início desse ano, a história da Jeep (hoje parte do grupo ítalo-americano Fiat Chrysler Automobiles) no Brasil foi retomada, após mais de 30 anos, com a construção de uma fábrica em Goiana (PE) e a fabricação do SUV compacto Renegade. O novo modelo faz várias homenagens ao precursor Jeep Willys, a começar pelo desenho da grade dianteira. Também há estampas da silhueta do velho jipe em diversos pontos do SUV, como o canto da janela dianteira. Uma verdadeira homenagem do recém-nascido ao vovô Willys.


