Nova Esperança - Nos primórdios da colonização do Norte do Paraná, nas décadas de 1920, 1930 e 1940, as toras de perobas que saíam da mata virgem eram transportadas pelos Gigantes, caminhões da Chevrolet que estavam entre os primeiros a chegar ao País em um tempo em que a indústria automobilística nacional praticamente inexistia. Fotos eram feitas desses caminhões com toras na carroceria e homens bens vestidos e avermelhados pela poeira - os chofers - ao volante.

Mais tarde, quando as matas deram lugar aos cafezais, mais fotos e elogios ao Chevrolet Gigante, capaz de transportar cem sacas de café - carga inexpressiva para os caminhões de hoje - mas volumosa para aquele tempo.

O ciclo da madeira e do café terminaram na região. Porém, em Nova Esperança, cidade de 26,5 mil habitantes a 35 km de Maringá, um Gigante sobreviveu ao tempo e ainda circula pelas ruas e pelas exposições de carros antigos, como testemunha da história do lugar.

O caminhão, fabricado em 1946, pertence a José Zacharias, um simpático agricultor de 85 anos, completados na última semana. Ele narra que a família Zacharias comprou o caminhão seminovo, em 1946 mesmo, na cidade de Garça (SP), quando o clã de sete irmãos migrou para o Paraná, estabelecendo-se na região do atual município de Floraí.

Cada um dos sete comprou um sítio de dez alquereis. José plantou café e mesmo em um pedaço relativamente pequeno de terra conseguiu fazer dinheiro para comprar outras propriedades e as partes dos irmãos do caminhão, que passou a ser o seu veículo de condução e fiel companheiro de trabalho até a chegada de um Mercedes 608, na década de 1970.

Por algum tempo, o Gigante ficou de lado na chácara de José, parado, já em Nova Esperança. Mas o homem sucumbiu ao amor antigo e resolveu reformar o velho companheiro há 10 anos, caprichando na pintura da lataria. A mecânica precisou de poucos reparos e o Chevrolet voltou a reluzir pelas ruas, com suas imponentes grades frontais cromadas e os para-lamas enormes.

O motor a gasolina, de seis cilindros e quatro marchas faz 6 km/l de combustível e está tinindo, liberado até para encarar estrada, segundo o ''mecânico oficial'' do Gigante, Tomaz Bigatão.

José trata a relíquia com o maior carinho e é meio ciumento. Sempre que pode, assume a boleia, não deixando que outros peguem o volante, e diz que não vende por preço nenhum. ''Vai ficar para sempre na família'', diz o pai de três mulheres e um homem, frutos do casamento com Angelina, já falecida.

''Esse caminhão foi a minha primeira condução. Muitas e muitas famílias que se mudavam do sítio para a cidade contavam com a ajuda minha e dele para fazer a mudança. É uma bela relíquia, que guardo com o devido carinho'', finaliza Zacharias.

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