Um carro com muitas histórias
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domingo, 04 de janeiro de 2015
Adriana De Cunto<br>Reportagem Local 
O carro é um Ford A Victoria ano 1931, mas na casa de Denise Remor ou na empresa que ela dirige em São José dos Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba), a Magnetron, o veículo é chamado simplesmente por "Fordinho". Um apelido carinhoso para um automóvel restaurado e conservado por amor. Ele foi comprado há cerca de seis anos pelo marido da empresária, Oscar Branco, que faleceu antes de terminar a restauração. Como foi um presente do esposo, ela e os filhos, Victor Caetano e João Caetano Remor Branco, decidiram ficar com o veículo e terminar o trabalho. "É muito mais pelo valor sentimental", revela. Mas reconhece: "O carro ficou realmente lindo". Uma verdadeira obra de arte, entregue à família no dia 9 de outubro.
O modelo Ford A tem uma ligação forte com a família Branco. Aos 21 anos, em 1971, Oscar saiu em um "Fordinho" 1929 com o irmão mais novo, Carlos, e o amigo Paulo Breda e viajaram de Joaçaba (SC) até a sede mundial da Ford em Detroit, nos Estados Unidos. A aventura dos três jovens catarinenses demorou 45 dias, sendo 25 dias com o carro na estrada, atravessando 13 países.
Um "senhor" carro de 43 anos resistiu a muitas dificuldades, vencendo o roteiro que começou em Joaçaba, depois Uruguaiana, cruzando a Argentina, a Cordilheira dos Andes, Chile, subindo as Américas até ganhar os Estados Unidos. O maior problema da viagem foi o fato do Ford 1929, então avaliado em US$ 10 mil, nunca ter voltado para o Brasil. Uma pessoa que ficou de despachar o automóvel para São Paulo sumiu sem dar notícias do bravo guerreiro.
Mas eis que Oscar Branco encontrou um outro "Fordinho" em Minas Gerais, em 2006, e a história recomeçou. "O carro estava destruído", diz Denise. O restauro levou mais de seis anos e foi feito em uma oficina de Joaçaba, especializada nesse modelo, a Rodrigues Ford A.
"O trabalho de restauração foi o mais difícil que enfrentamos até hoje. Muito pelas madeiras internas da carroceria e por ele ter peças que foram feitas somente para o Victoria, então não podíamos pegar peças dos outros modelos", conta Remi Rodrigues, que dirige a oficina junto com o irmão, Rudy. Segundo ele, várias partes da carroceria estavam podres e a madeira, infestada de cupim. A parte mecânica não funcionava.
Rodrigues explica que o Victoria é um carro raro porque sua produção foi muito pequena (0,87% da produção total do Ford A, que foi de 4.858.644 unidades). Além disso, a estrutura principal da carroceria era em madeira, ou seja, quando apodrecia era muito difícil de ser refeita. "Então, a maioria optava em encostar o carro que logo ia para o ferro-velho", afirma. Segundo ele, os modelos de carroceria que mais vieram para o Brasil foram o Phaeton (conversível 4 portas) e os Roadster (conversível 2 portas), mais conhecido como "Baratinha" .
O Victoria tem um motor de 4 cilindros a gasolina, com 3.300 cilindradas , 40 CV de potência e caixa de 3 velocidades a frente e uma a ré. "A caixa de marchas é com dentes retos e exige uma boa habilidade do motorista para não arranhar as marchas todas as vezes que faz uma troca", conta. O "Fordinho" atinge uma velocidade de até 100 km/hora.
"É um pouco difícil avaliar um carro antigo", diz Rodrigues. Ele acredita que um Victoria 1931 vale entre R$ 180 mil e R$ 200 mil, por conta da carroceria. Os outros modelos mais comuns como os Phaeton, Roadster e Tudor chegam até a metade deste valor.
COMO DIRIGIR
Quem está acostumado com direção hidráulica e botão start/stop não imagina o quanto pode ser complicado dirigir o "Fordinho". "Deve-se abrir a gasolina, atrasar o ponto do distribuidor através de uma alavanca no lado esquerdo da coluna de direção, regular o acelerador em outra alavanca no lado direito da mesma coluna, puxar o afogador, girar a chave e apertar um botão no assoalho com o pé direito. Após o motor funcionar, a alavanca do ponto do distribuidor deve ser adiantada novamente", ensina Rodrigues. E não é tudo. Como a caixa de marchas é com engrenagens de dentes retos, a troca deve ser feita em dois tempos.


