A troca de carro se transformou numa forma de financiar dinheiro informalmente. Muita gente está trocando um veículo usado por um mais velho para saldar dívidas, inclusive multas. O dinheiro que antes servia para dar uma boa entrada no automóvel zero-quilômetro hoje é usado para pagar a última prestação do carro velho, ou simplesmente para quitar as multas, que estão bem mais caras por conta das novas leis de trânsito. O mercado convive hoje com toda espécie de endividados. Há quem comprometa 95% do valor do carro que vendeu só nas despesas para a compra de um novo.
A falta de recursos se deve, em boa parte, às facilidades de financiamento. Quem se endividou para comprar um automóvel em 12, 24, 36 e até 42 meses, compromete no financiamento a parte do orçamento que serviria para o seguro, licenciamento e até as multas, que pegaram muita gente desprevenida por conta do Código Brasileiro de Trânsito.
O motorista Carlos Bertolini vendeu um Gol 97 por R$
8.300. Mas ficou só com R$ 675 no bolso. A maior parte do dinheiro foi usado para quitar uma lista de despesas. Os itens incluem desde a última prestação do carro usado até multa por desobedecer ao rodízio, uma penalidade com a qual Bertolini não sabe como lidar porque a profissão de motorista exige que ele esteja nas ruas todos os dias.
A empresa onde Bertolini trabalha exige que ele troque de carro no máximo a cada dois anos. No negócio fechado há poucos dias ele vendeu seu Gol de dois anos por R$ 8.300. Gastou R$ 2.425 para pagar as despesas pendentes só com carro (financiamento, licenciamento, seguro, multas e despachante) e deu R$ 5.200 de entrada num Gol zero-quilômetro, que custa R$ 15 mil. Vai pagar agora o que deve em 36 meses.
Bertolini considera as pesadas multas no trânsito ‘‘uma fábrica de fazer dinheiro para o governo’’. Ele não se conforma, por exemplo, por ter sido multado em R$ 170 por exceder a um limite de velocidade de 30 quilômetros por hora. ‘‘Eu estava em 46’’, conta.
Recentemente um cliente trocou em uma concessionária Volkswagen de São Paulo, um carro de R$ 12 mil por outro de R$ 15 mil. Numa transação tradicional em que a pessoa não possui o dinheiro da diferença, ela financiaria R$ 3 mil. Neste caso - ele prefere não ser identificado - o cliente financiou R$ 3.500. Os R$ 500 a mais ele levou da concessionária para pagar multas.

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