Tatóloga avalia textura e maciez dos carros
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sábado, 12 de maio de 2012
Cleide Silva <br> Reportagem Local 
São Paulo - A função não existe na relação de profissões nem consta no dicionário. Na fábrica da Volkswagen, contudo, é assim que Flavia Bassani é conhecida: tatóloga. A habilidade no tato a alçou a um cargo que precisou ser inventado. Sua tarefa diária é tatear, apalpar, sentir todos os componentes do automóvel com os quais o consumidor terá contato.
Qualquer anormalidade verificada em peças internas como volantes, painel, fechadura e câmbio terá de ser avaliada. Se o contato não for considerado satisfatório em relação à textura e maciez, ou se apresentar incômodo, o componente terá de voltar para a área de desenvolvimento. Muitas vezes, é preciso substituir o material usado.
''As pessoas passam muito tempo dentro do carro e precisam ter conforto'', justifica Flavia, que ocupa o cargo de tatóloga na fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo (SP) há apenas um ano. Aos 37 anos e formada em engenharia de materiais, ela desenvolveu a habilidade com as mãos na própria empresa, onde está há dez anos.
Mesmo com toda a tecnologia disponível para o desenvolvimento e produção de um veículo, a indústria automobilística ainda depende de profissionais como Flavia, pois máquinas não têm a sensibilidade das pessoas.
Flavia, registrada em carteira como engenheira sênior, diz que sua tarefa é verificar se o toque em qualquer dos componentes internos do automóvel ''é sutil''. O volante de um carro popular, por exemplo, precisa ter textura similar ao de um carro de luxo, normalmente em couro. ''Mesmo que o material de um carro mais básico seja outro, o cliente precisa sentir o mesmo conforto.'' Cabe então à montadora, junto com seus fornecedores, encontrar matérias-primas adequadas.
Não tem norma específica para obter formação nessa área. A habilidade é conquistada ao longo do tempo, com muito treinamento. Toda vez que um novo componente é incorporado ao veículo a peça passa pelo crivo de suas mãos.
Flavia recebe cinco amostras e precisa tateá-las por um período até ter um veredicto. ''Se tiver algum problema, chamamos o fornecedor para discutir o que pode ser feito para melhorar'', diz. ''Muitas vezes é questão de mudar a matéria-prima utilizada, mas há casos em que temos de trocar o fornecedor.''
Próxima a Flavia, trabalha a química Maria de Lourdes Feitosa Di Franco, uma das maiores especialistas do País em identificar e eliminar odores desagradáveis. Ela cheira os novos componentes e o próprio automóvel recém-saído da linha de montagem para detectar odores que possam desagradar ao cliente ou até mesmo provocar alergias.
''O brasileiro gosta de cheiro de carro novo, desde que não incomode'', afirma. Ela tem 52 anos, trabalha na Volkswagen há 30 e a foi a primeira brasileira a receber um certificado de ''nariz calibrado'', no início dos anos 90. Maria de Lourdes já treinou 13 pessoas que exercem a função nas fábricas da montadora no Brasil e na Argentina.


