Som alto dá multa e prejudica ouvido
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sábado, 14 de junho de 2003
Erika Zanon<br> Reportagem Local 
A cena já se tornou comum: jovens passeiam de carro embalados por um som em um volume altíssimo. O barulho, que ultrapassa os limites auditivos do ser humano, chega a tremer os vidros das casas e incomodar a vizinhança de um quarteirão inteiro. Tal atitude pode provocar, além de uma multa pesada ao bolso do dono do carro, males irreversíveis aos ouvidos de quem está dentro do carro.
Mesmo assim, os jovens insistem em aumentar o volume. A razão? Quase sempre é a mesma: chamar a atenção ou ser o destaque da turma. Eles não têm preocupação com dinheiro, pois gastam no mínimo R$ 5 mil em equipamentos de som. As multas, previstas tanto pelo Código Nacional de Trânsito quanto pelo Código de Postura do município também não impedem a ''façanha''.
No entanto, a maioria dessas pessoas não tem conhecimento de que o ouvido humano suporta ficar exposto a um volume de até 85 decibéis. Os que ficam expostos a um barulho maior que esse limite podem sofrer danos irreversíveis à audição. Segundo o otorrinolaringologista Luiz Nobuo, o trauma acústico, provocado por uma lesão do nervo auditivo, se apresenta como o resultado mais comum a exposição a um barulho diário acima de 80 decibéis. Nobuo estima que o barulho em um carro com o som no extremo pode ultrapassar os 120 decibéis. O especialista destaca que se não tratado a tempo, o problema pode levar a perda definitiva da audição.
Mesmo tendo conhecimento dos riscos a que está sujeito, ouvindo o som no volume mais alto, Tiago Borin Cardoso, 20 anos, colocou em seu carro os mais modernos equipamentos. ''Eu sei que o som alto pode causar problemas, mas isso me dá prazer e cada vez a gente quer escutar mais alto'', revela. Ele tenta se explicar dizendo que não ouve o som alto quando está dentro do carro e que só deixa no ''último'' quando a ''galera'' está toda reunida. ''A gente se detaca entre os amigos e ainda ganha umas gatinhas'', brinca o rapaz.
Para outras pessoas, como um estudante de 20 anos, que preferiu não se identificar, aparecer não é a idéia principal. O motivo é outro: a paixão por som. ''Eu coloquei até DVD no carro, porque gosto de um som com qualidade'', ressalta o estudante. A preocupação quanto à saúde também não lhe impede que ouça o som no volume máximo. ''Quando estou escutando o som bem alto dentro do carro, não fico preocupado com os riscos à audição. A gente acha que nunca vai acontecer com a gente'', confessa o estudante.
O otorrino lamenta o fato das pessoas ignorarem a questão, deixando de se prevenir e avisa: ''O problema pode não se manifestar agora, mas vai aparecer com o passar do tempo. A partir dos 60 anos o nervo vai se deteriorando naturalmente e pode ser agravado dependendo dos traumas que a audição sofreu''.
Ele compara o barulho emitido por um bom sistema de som, aos barulhos emitidos por britadeiras, máquinas de marmoraria, metalúrgicas e até pistas de avião. Na tentativa de diminuir os problemas de saúde, o médico citou o exemplo de algumas empresas que fornecem aparelhos de proteção auditiva a seus funcionários. ''Essa idéia já virou lei por se tratar de uma questão tão delicada'', lembra.
Os principais sintomas de deficiência no nervo auditivo são zumbido (um tipo de chiado) e até uma leve vertigem, segundo o especialista. Ele aconselha as pessoas a ficarem expostas apenas a volumes que sejam confortáveis ao ouvido e em caso de problema, realizar o teste audiométrico.


