Santos Dumont trouxe o 1º carro para o Brasil em 1893
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de janeiro de 1997
Auto Press 
Ivo Akio Poluição, engarrafamentos, falta de transportes e rodízio de veículos. Nada disso acontecia naquela próspera cidade de 200 mil habitantes chamada São Paulo. Mas o grande invento de final de século estava por chegar para mudar o perfil da cidade.
Em uma tarde de 1893, uma multidão parou em frente a uma mansão, no bairro de Campos Elísios, para ver a primeira carruagem se locomover sem tração animal. No comando, Henrique Santos Dumont, irmão daquele que mais tarde revolucionaria o mundo com o invento do avião. O povo o cercou para ter informações sobre o estranho veículo, um Peugeot com motor Daimler, com espaço para duas pessoas e movido a vapor, com fornalha, caldeira e chaminé. Algo parecido com o carro da Família Buscapé no desenho da tevê Corrida maluca.
Na capital do país, Rio de Janeiro, a novidade chegaria quatro anos mais tarde, quando o jornalista e abolicionista José do Patrocínio, ao voltar da França, anunciou: Trago de Paris um carro a vapor, o veículo do futuro, meus amigos. Um prodígio. Mas seu prodígio logo se transformaria em sucata. O amigo e poeta Olavo Bilac, interessado em aprender a nova arte de dirigir, enfiou o carro em uma árvore na Floresta da Tijuca. Ficaram aí registrados o primeiro acidente e o primeiro barbeiro brasileiro.
Em Petrópolis, em 1900, o engenheiro Fernando Guerra desfilou com o primeiro carro a explosão, um Decauville de 6 cv movido a benzina, abrindo a era dos motores a combustão. No Nordeste, o industrial José Henrique Lanat deixava os baianos extasiados com o seu Clément movido a gasolina. Como não existia o combustível em Salvador, Lanat o importava da França em latas de 20 litros.
Em São Paulo, surgiam as primeiras leis para o uso do automóvel. O prefeito Álvaro Ramos instituía o pagamento de uma taxa, como era feito com os tílburis e outros meios de transportes, e a inspeção de licenciamento. Diante do mau estado das ruas, Henrique Santos Dumont se recusou a pagar e perdeu a licença para trafegar. Com isso a tão cobiçada placa P-1 foi para as mãos do Conde Francisco Matarazzo.
Em 1904, São Paulo já tinha 83 veículos e o Rio, 40. Mais uma vez era necessário se fazer leis: a placa de identificação passara a ser obrigatória; a velocidade em locais de muitos pedestres não poderia ser maior do que a de um homem andando e, em hipótese alguma, deveria se passar dos 30 km/h, mesmo nos locais mais desertos. Nessa época também é criada a carta de habilitação e o primeiro motorista a recebê-la foi o doceiro Menotti Falchi, dono da fábrica de chocolates Falchi.
Na segunda metade da década de 1910 o automóvel já não era tanta novidade nos grandes centros. Na avenida Rio Branco, no Rio, - pavimentada e dotada de luz elétrica - os carros costumavam desfilar todas as tardes e João Borges inaugurou o serviço de táxi, com uma frota de cinco carros. Os irmãos Grassi fundavam em São Paulo a primeira oficina mecânica para construção de carrocerias e acessórios para automóveis.
Apesar do enorme avanço, os automóveis tinham um grande inconveniente: poucas pessoas sabiam de fato lidar com ele. Jornais do país inteiro adoravam publicar notícias sobre acidentes, principalmente atropelamentos.
Os motoristas - ou como eram chamados, chauffeurs - não inspiravam muita confiança, a não ser os estrangeiros que chegavam com alguma experiência e logo empregavam-se com um bom salário e recebiam um tratamento de herói. Mas, aos poucos, o povo, que antes vaiava ou aplaudia quando um carro passava, foi deixando o preconceito de lado e passou admirar o novo brinquedo, que hoje domina as ruas e estradas do país, onde trafegam cerca de 15 milhões de veículos.
Primeira viagem Rio-São
Paulo demorou 33 dias


