A falta de peças de reposição continua preocupando o mercado automotivo e afetando diretamente os donos de veículos, que em alguns casos chegam a ficar meses sem o carro, à espera de conserto.
A falta de uma política adequada no pós-venda é outro problema enfrentado pelos consumidores. "Toda a equipe está direcionada para a linha de montagem das montadoras, assim como todo o aparato tecnológico. Não há plano para atender o mercado de reposição e, muito menos, interesse", comenta o diretor executivo da Associação Nacional dos Fabricantes de Autopeças (Anfape), Roberto Monteiro. Criada em 2007 com o intuito de representar e fortalecer o setor de reposição independente de autopeças no Brasil, a Anfape reúne hoje cerca de cem fabricantes de componentes visuais.
Segundo o diretor, a falta de peças está atrelada à queda nas vendas de carros novos. "Todo o setor se retrai. As montadoras precisam readequar suas linhas de produção e o fabricante desvia o estoque para atender o mercado de reposição."
Monteiro explica que o repasse de peças acontece de duas maneiras: pelo mercado independente, que fornece para distribuidores e lojistas, e por meio dos fornecedores das montadoras, que abastecem as concessionárias. "O preço que a oficina consegue no mercado independente é diferente do preços das concessionárias, que acabam criando uma política de desconto ao cliente."
O diretor da Anfape lembra que por lei, as oficinas devem repor uma peça em, no máximo, 30 dias. "Mas é comum vermos carros parados por mais de 60 dias por falta de peças", completa Monteiro. Na opinião dele, "as montadoras não têm interesse em repor peças porque querem vender carros novos".
Dentro do mercado de reposição brasileiro, 85% das peças produzidas ou importadas são destinadas à linha de montagem. "O fabricante prefere atender grandes empresas, sempre foi assim, mas hoje esse problema se agravou consideravelmente, principalmente porque existem diferentes modelos de veículos e a dificuldade em repor peças aumenta", justifica Monteiro.
Segundo ele, a qualidade das peças comercializadas no País atualmente são de bom nível e muitos materiais são importados da China. "O fabricante brasileiro ainda pensa em atender apenas o Sul e Sudeste do Brasil enquanto o chinês está preocupado com o mundo, por isso oferece preços mais competitivos, mas quando o chinês chega ao País e precisa nacionalizar seu produto, acaba enfrentando os mesmos problemas que os fabricantes brasileiros", avalia.
Para Monteiro, os donos de oficinas, hoje, estão de mãos atadas. "Muitos recorrem a desmanches e é o mecânico que acaba culpado se um carro fica muito tempo parado no conserto."
O diretor da Anfape conta que a associação ajudou a formar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo a fim de investigar como as montadoras têm tratado o mercado secundário de lá. "Montadoras querem impedir que fabricantes independentes operem no mercado. Para isso, não liberam equipamentos de avaliação para as oficinas, como scanners, que fazem a leitura do software do veículo e detectam possíveis problemas no carro", reclama Monteiro.
Outra questão que tem sido debatida pela Anfape junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e ao Ministério Público Federal (MPF) é a comercialização de peças cativas, de exclusividade das montadoras, que têm design protegido por lei. "Temos uma ação no Cade desde 2007 por abuso de direito", diz o diretor, explicando que as montadoras registram determinados produtos, que quando chegam ao mercado de reposição, se tornam monopólio das mesmas. "A indústria brasileira perde muito, enquanto os importadores ganham. Hoje, muitas empresas diminuíram de tamanho e mudaram sua linha de atuação, buscando um nicho de mercado que o chinês não quer."
O Cade, por meio da assessoria de comunicação, informou que o processo que investiga o comércio de peças cativas ainda está em fase de instrução pela superintendência geral do conselho. A FOLHA tentou repercutir o assunto com representantes da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), mas as entidades preferiram não se pronunciar.

mockup