RELÍQUIAS - O legado das Vespas e Lambrettas
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de janeiro de 2011
Mie Francine Chiba<br> Reportagem Local 
Quando o empresário da área da alimentação aposentado Hélcio da Cruz Gallo tinha seus 15 anos, o pai dirigia caminhão de transporte e a mãe era dona de casa. Era década de 1960 e as famosas Vespas e Lambrettas tomavam conta das ruas da cidade. Mas o dinheiro era pouco, e o rapaz ficava apenas admirando as motonetas de quem tinha mais condições.
Um colega descendente de japoneses chamado Américo era filho de empresário da área de retífica e desfilava na escola cada dia com uma motoneta diferente. Hélcio e seus amigos saíam da aula e ficavam namorando as máquinas do colega japonês, observando cada detalhe.
Os detalhes das motos de Américo ficaram marcados na memória do rapaz, que cerca de 40 anos mais tarde, conseguiu realizar o sonho de adquirir uma Vespa M4, de 1963. Na verdade, o que ele adquiriu foi uma Vespa que, abandonada, já nem valia dinheiro algum para o dono. Tanto que foi doada a um amigo de Gallo, para que pudesse ser entregue, enfim, ao aposentado de 62 anos.
A partir daí iniciou-se o trabalho de restauração, e todos aqueles detalhes das motos guardados na sua memória vieram à tona. Claro que a memória de Gallo também conta com a ajuda da internet para o trabalho minucioso. Mas a cor da motoneta, por exemplo, foi alterada de acordo com a imagem da época daquela cobiçada.
A Vespa M4 era o sonho de consumo de Gallo desde aquela época. Segundo o aposentado, que hoje dá aulas em uma autoescola do lado de casa, todo ''velho'' que gosta de carro antigo adquiriu o hobbie a partir de uma vontade que veio lá de trás. ''A Vespa custava o que custa hoje uma moto boa e mais do que eu poderia pagar. E eu dizia: um dia vou ter uma.''
Este foi o caso também do ex-presidente do Clube do Carro Antigo de Londrina, o empresário Waldemar Maran. Ele tem uma Lambretta LI azul e branca de 1975 que restaurou completamente, há quatro anos. ''Para matar saudade dos tempos'', diz. Tempos em que as Lambrettas e Vespas, por serem um meio de locomoção barato, eram bem comuns de serem vistas nas ruas.
''A maioria das pessoas guardam uma Lambretta porque gosta, por saudosismo e querer preservar a sua história.'' Ele acredita que ainda existem muitos londrinenses com posse de motonetas desse modelos bem preservadas ou restauradas, encaradas como relíquias.
Segundo Gallo, 1965 foi o auge das Vespas e Lambrettas. Em Londrina, onde nasceu, os modelos tomavam conta das ruas. ''Naquela época não existia praticamente motos. Não havia fábrica nacional de motos na década de 1950. Mas em fotos antigas, você vê, onde hoje é o Calçadão, várias Vespas e Lambrettas estacionadas lado a lado.''
Restauro
Além da M4, o aposentado possui mais duas Vespas e duas Lambrettas em processo de restauração. As Vespas são de três marchas, uma vermelha e branca de 1957 e outra cinza de 1961. As Lambrettas, que também caíram no gosto de Gallo, são uma Stander de 1955 e outra Luxo LD de 1955. A Lambretta Stander 55 é a mais rara da coleção. ''Para efeito de valorização, é a mais cara pela dificuldade de encontrar alguma em bom estado e completa''.
Hoje, o trabalho de restauração das paixões da juventude toma, pelo menos, uma hora do dia. ''Quando mexo, esqueço até de comer.'' E exige paciência. Ele fala, por exemplo, da saga que foi conseguir reconstituir o farol traseiro, que ele tinha conseguido incompleto. A peça que faltava ele encontrou pela internet à venda em São Paulo. O pedido foi feito ao futuro genro (namorado da filha), que estava lá, para trazê-lo. Mas essa é que é a graça da coisa.
Apego
Quando se vê o resultado final, dá nisso: Gallo não deixa nem a filha, nem o futuro genro, nem o irmão ou o amigo fã de motos antigas andar na motoneta. E olha que a vontade do grupo, se juntar, não cabe na casa que o aposentado ocupa desde a meninice. ''Quando comprou, de tanto eu pentelhar, ele deu uma volta comigo na garupa'', conta a filha, Regina. Mas foi só. Depois disso, a Vespa subiu para sua salinha e lá ficou até ficar pronta.
Quando pronta, desceu, mas tal qual uma peça de exposição. Quando a reportagem chegou à casa, ela estava sobre a mesa do quintal, enaltecida. Para descê-la de lá para uma foto na garagem, pareceu uma cirurgia feita a dez mãos: Gallo, Regina, o namorado, o irmão e o amigo, cada qual segurando uma peça para garantir que a moto chegasse íntegra ao chão. Posou na foto ao lado das motos dos jovens da família e agregados (uma Yamaha e outra Harley Davidson).
''Não se preocupe que seu legado estará seguro'', diz o amigo da família, Leonardo Pascholatti, tentando tranquilizar o aposentado. De fato, é acolhedor saber que o trabalho realizado não ficará esquecido, e que os filhos e seus amigos o preservarão. ''Mas não vou abrir mão tão cedo'', responde Gallo, entretanto.


