Desde que anunciou a demissão de 2.800 empregados na véspera do Natal, a direção do Ford tem gasto grande parte do tempo administrando problemas. Numa espécie de inferno astral, a montadora já enfrentou greve de cegonheiros, falta de peças, desistiu de construir uma fábrica no Rio Grande do Sul depois de perder um empréstimo do governo gaúcho e corre o risco de ter de devolver parte do dinheiro que já havia recebido. Tem ainda 1.500 empregados em regime de suspensão temporária. Mas, em entrevista exclusiva à Agência Estado, o diretor de assuntos corporativos da Ford, Célio Batalha, diz que nada, entre toda essa desgraça, é pior do que ver o mercado encolher mesmo com redução de impostos.
A greve de cegonheiros que a montadora já teve que enfrentar este ano foi localizada: só atingiu a Ford. A falta de componentes também veio de fornecedor exclusivo Ford. As demissões que a empresa anunciou no dia 18 de dezembro não foram concretizadas -por pressão dos trabalhadores -, mas também não foram resolvidas. Cerca de 1.500 ainda estão em regime de suspensão temporária e isso está atrapalhando até a renovação do acordo automotivo emergencial. Os sindicalistas não querem agora participar do acordo emergencial se a estabilidade no emprego excluir estes trabalhadores.
‘‘Não vamos condicionar o acordo à suspensão temporária’’, afirma Batalha. ‘‘Temos excesso de pessoal desde o início do ano e desde então o mercado não mudou’’, completa. Segundo o executivo, que também negocia o acordo emergencial na condição de primeiro vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a questão da suspensão temporária está sendo negociada com o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC com vistas a encontrar maior grau de eficiência.
A retração do mercado, que resulta no excesso de pessoal não tem a menor chance de se alterar, nas contas da Ford, mesmo com toda a movimentação em torno da renovação do acordo emergencial. ‘‘Considerando todos os cenários possíveis, o que mais preocupa hoje, mesmo assumindo a continuidade do IPI reduzido, é que a indústria vai vender este ano 300 mil veículos menos do que no ano passado’’, lembra Batalha.
Com a renovação do acordo, Batalha prevê mercado de 1,2 milhão de veículos. Sem o acordo, seria pior. Em 1998 foram vendidos 1,5 milhão, um volume que já ficou abaixo dos 1,9 milhão de unidades do ano anterior. Para este mês, o executivo prevê a venda de 120 mil veículos. ‘‘A renovação do acordo é favorável, mas o cenário ainda é difícil, não temos um mercado seguro’’, completa Batalha.

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