PILOTO POR UM DIA Repórter sente na pele a emoção da Stock Car
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sábado, 14 de junho de 2003
Renê Muller<br> Reportagem Local 
O ronco do motor já dá aquela tremida no esqueleto. Mas é um medo passageiro. No autódromo de Londrina, com suas curvas fechadas, um piloto de um Stock Car V8 é exigido ao máximo. O carro também: o equilíbrio das molas, dos amortecedores, é indispensável. Ganhar uma corrida ali não é nada simples. Mas só é possível pensar nessas dificuldades ao sair do cock pit. Durante os segundos que duram uma volta, um condutor novato esquece do calor, da inexperiência e mesmo daquela tão falada tremedeira.
Só mesmo dirigindo um V8 destes para entender o motivo pelo qual aqueles pilotos que, quando crianças, víamos acelerar nos autódromos de todo mundo, não conseguem abandonar o volante dessas máquinas. ''É uma cachaça'', afirma Guto Negrão, 34 anos, piloto do carro 27 da equipe Medley Genéricos. Primeiras lições anotadas, agora é a vez do repórter sentir na pele as emoções e dificuldades de um profissional da velocidade.
Guto, que ocupa agora a 11colocação do Brasileiro de Stock Car V8, vai tranquilizando. ''É como dirigir um carro normal'', diz. Depois, uma aula rápida sobre a engenharia do carro. O mecânico explica que a única coisa que existe ali igual aos nossos carros de rua é o formato. De longe, dá para dizer que é um GM Vectra. De perto, descobre-se que a carroceria é feita com fibra de vidro. O motor de um Vectra normal é transversal, e tem quatro cilindros. O desses beberrões velozes, é longitudinal, V8, e fica atrás do eixo dianteiro. A tração, ao contrário da do primo que circula pelas ruas do país, é traseira. Embaixo, o carro é todo liso: precisa de aerodinâmica.
Primeiro, é bom dar umas voltas na carona, para se acostumar com a velocidade. Antônio Jorge Neto, 39 anos, é quem vai pilotando seu carro, o de número 15. ''Na segunda volta, vou dar uma rodada num ponto mais tranquilo, e você pode dar uma sentida no trabalho da supensão, dos pneus'', avisa. A primeira acelerada, e o coração do repórter-carona sobe até a boca. Mas logo aprende que o piloto de Stock Car não precisa reduzir tanto para fazer uma curva.
Haja braço! A segunda volta é mais tranquila, já está mais que provado que Neto é fera mesmo. A rodada que ele avisou que ia dar, pra não matar o carona do coração, serve prá sentir o carro, a suspensão e os pneus. Quando termina esse ''aquecimento'', já é tempo do repórter virar piloto.
E, realmente, não é tão diferente quanto dirigir um carro de passeio. O banco é estreitinho, baixinho. O capacete pesa. O calor é sobrenatural, e olha que o carro não é fechado como os oficiais, de prova. A dificuldade maior é perder o medo de pisar no acelerador. Basta um simples empurrãozinho no pedal, para o motor responder prontamente, berrar, sempre pedindo mais.
O desempenho do dublê de piloto é discutível: só chega até a quarta marcha. Também faz curvas lentas e atrapalhadas, que poderiam ter sido melhor percorridas. Mas, apesar de não ser o mais apaixonado dos motoristas, e de entrar rezando em um Stock Car, soltou o volante com aquela sensação de ''quero mais''.


