Oficinas querem reconquistar clientes
Da redação
É, madame, seu carro está com um probleminha na rebimboca da parafuseta. Citada num comercial televisivo, esta frase repercutiu nacionalmente como expressão das situações em que o consumidor mal-informado poderia ser logrado pelo prestador de serviço automecânico.
No entanto, a mesma frase soou como desrespeito com relação aos profissionais ligados ao setor de reparação de veículos e, na época, a propaganda foi tirada do ar com o apoio do Sindirepa - Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios do Estado do Paraná.
O episódio ilustra uma das inúmeras ações em benefício da classe realizadas pelo sindicato, desde1985, quando foi fundado por um grupo de empresários que se desvincularam do Sindicato dos Metalúrgicos. No nosso setor existem bons e maus profissionais, como em outro qualquer. Por isso, não podíamos deixar que uma propaganda de TV colocasse todos no mesmo patamar, defende o presidente do Sindirepa, Wilson Bill, que há 30 anos atua no setor de reparação de veículos.
Competição
No entanto, mais do que defender o setor, o sindicato vem se mostrando preocupado com o futuro das oficinas reparadoras. Hoje, temos uma infinidade de obstáculos a transpor, sendo o maior deles a conquista da credibilidade do mercado, explica Bill.
De acordo com ele, o consumidor vem optando pelo serviço mais caro, no entanto, garantido, das concessionárias. E nesse processo as empresas também são preferidas pelas seguradoras de veículos, em função da flexibilidade de negociação. Nós, proprietários de oficinas, já não podemos estender o prazo de pagamento por mais de 30 dias, como nos solicitam as seguradoras, afinal temos compromissos, com datas impreteríveis, como o pagamento de nossos funcionários e fornecedores, frisa. No entanto, com relação à garantia do serviço, estamos criando mecanismos que tornem isso viável (veja quadro), garante.
Metas
Diante da concorrência com as concessionárias e de estatísticas que prevêem o fechamento de 50% das oficinas existentes no país até 2005, o Sindirepa vem tentando criar mecanismos que possibilitem a prosperidade daquelas que conseguirem se manter no mercado. Para isso, o sindicato já deu início a um processo de classificação das concessionárias que possibilitará ao consumidor escolher entre a oficina classificada como de qualidade A, B e C. A oficina classificada como A pelo sindicato, garantidamente não deixará nada a dever para as concessionárias. Pelo contrário, poderá oferecer até mesmo um serviço mais personalizado, avalia Bill.
A partir da classificação, o sindicato pretende criar tabelas de preços para orientar os proprietários das oficinas sobre o valor dos serviços a ser cobrado, de acordo com o patamar de classificação em que se encontra. Dependendo da tecnologia utilizada na oficina, o profissional poderá cobrar mais ou menos por determinado serviço.
Tecnologia
Depois da classificação do setor, o incentivo ao investimento em tecnologia é uma prioridade do sindicato. Nós temos promovido diversos cursos de atualização sobre o que existe de mais moderno em termos de equipamentos no mercado, além de palestras e orientações sobre técnicas administrativas para os empresários do setor, conta.
Em um curso realizado pelo Sindirepa, no último dia 29, na Show Car, Bill frisou a necessidade de investimento em recursos tecnológicos e na especialização dos serviços. Embora não exista qualquer forma de financiamento para a compra de equipamentos da indústria reparadora de automóveis, não há como permanecer no mercado sem investir em tecnologia, garante.
Além disso, hoje já não basta ser apenas uma oficina autorizada por determinado fornecedor. É necessário tornar-se especialista em determinado tipo de reparo. Por exemplo, apenas lataria, motor e parte elétrica, afirma. Bill explica que em função do alto custo dos equipamentos, para poder oferecer um serviço de qualidade é preciso escolher um ramo do setor de reparação e voltar todos seus recursos para obter a estrutura necessária para a prestação de um serviço qualificado.
Não podemos perder de vista, que a tendência é que o número de concessionárias no País, nos próximos anos, salte de 4 mil para 6 mil, que a quantidade de oficinas classificadas como A passe de 10 mil para 15 mil, enquanto o número de oficinas do tipo B deve reduzir de 15 mil para 5 mil e as oficinas C devem passar de 21 mil para apenas 8 mil, ressalta Bill.
Garantia de qualidade
Ao processo de classificação proposto pelo Sindirepa, soma-se a alternativa de criar uma associação de oficinas que garanta a qualidade dos serviços prestados por todas as empresas envolvidas, como numa rede de concessionárias. Todas as oficinas do grupo teriam que zelar pelo mesmo padrão de atendimento e serviços, afirma Wilson Bill.
O primeiro passo para essa padronização seria a exigência do Cerificado Ase, concedido aos profissionais que passam por um exame de conhecimentos técnicos realizado anualmente, numa mesma data, em todo o País, como uma espécie de vestibular.
A certificação Ase foi criada em 1972, nos Estados Unidos, a pedido do governo, que percebeu a intranquilidade do consumidor quando levava seu veículo para o conserto e encontrava dificuldades para a conclusão dos serviços solicitados. Com o tempo, veio o reconhecimento e a clientela passou a confiar naquelas oficinas onde o profissional ostentava a certificação Ase, significando capacidade técnica, qualidade e segurança, explica Bill.
O presidente do sindicato frisa que, além da padronização dos serviços, é necessário um maior apoio do governo ao setor, não apenas viabilizando financiamentos para aquisição de equipamentos, mas direcionando corretamente os recursos disponíveis para preparo do trabalhador. O Fat (Fundo de Amparo ao Trabalhador), que deveria ser utilizado para capacitação dos trabalhadores, visando à redução da taxa de desemprego, foi completamente absorvido pelas montadoras, denuncia.Apenas as empresas que apostarem na modernização dos equipamentos sobreviverão à concorrência imposta pelas concessionárias
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