Em vez de morte, vida. Em vez de fim, recomeço. Em vez de sangue, combustível. Em vez de guerra, paz. Em vez de violência, beleza. Invertendo a ordem das coisas, um juiz de Londrina decidiu recriar máquinas as quais os campos de batalhas e o tempo estavam se encarregando de destruir. Graças a ele, veículos militares carcomidos e condenados foram reinventados com a imponência de antes mas com um novo propósito.
  Dos tribunais, João Casemiro Wielewicki se aposentou há alguns anos, mas conta que foi enquanto ainda atuava como juiz no começo dos anos 1970 que viu surgir a admiração por carros militares. Em 1974, o magistrado trabalhava no extremo oeste do Paraná, próximo à divisa com a Argentina, e em certa ocasião teve que se deslocar por uma estrada de terra sofrível para chegar até uma comarca distante. No meio do caminho, se deparou com uma picape militar em péssimo estado que tinha acabado de emperrar e um motorista injuriado. ‘‘Falei meio brincando se queria vender e ele, de imediato, respondeu para eu dar um lance. ‘Dois salários mínimos’? Ele me olhou meio desconfiado e retrucou: ‘mas não é muito para o senhor’?’’. O negócio foi selado alí mesmo. Depois de restaurado, o veículo foi revendido por quatro vezes: ‘‘Troquei a camionete por um Fusca do ano’’.
  E a partir de então não parou mais. Dos muitos modelos que já recuperou, alguns permaneceram com ele e hoje revelam o extraordinário esmero que dispensou a cada um deles.
  A máquina que tem há mais tempo é um Comando Dodge Modelo 42 – fabricado nos Estados Unidos –, comprado em um leilão do Exércio em 1980. Wielewicki cita que o Brasil recebeu apenas 20 unidades, que foram usados pelos pracinhas que combateram na Itália durante a 2ªGuerra Mundial. ‘‘É igual ao usado pelo general Leclerc na libertação de Paris’’, recorda o juiz, completando que nos bancos do veículo já sentaram os ex-presidentes Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo. Até o Papa João Paulo II usou um igual em uma de suas visitas ao país.
  Um pouco diferente do original, o Comando do juiz foi reequipado com um motor de 150 cv, freio a disco e direção hidráulica. Robusto e confiável, o carro é muito requisitado para eventos militares.
  Outro exemplar da coleção de Wielewicki é um MUTT 1964, também de fabricação americana, que no Brasil ganhou o carinhoso apelido de Patinha. O modelo foi usado pelas tropas brasileiras que integravam a Força Interamericana de Paz em Santo Domingo, na República Dominicana. Reformado em 1986, o veículo tem algumas particularidades: a carroceria é blindada, os cabos das velas são parafusados, os eixos com dois cardans separados fazem com que as rodas permaneçam o tempo todo tracionadas e no chão, os faróis e lanternas são originais e a buzina foi tirada de um tanque de guerra.
  Mas, talvez pelo tamanho, um dos maiores exemplos da dedicação do juiz seja o imponente caminhão REO fabricado nos Estados Unidos em 1964 – o modelo é de 1951 – e que, com poucas modificações do projeto original, ainda é usado pelo Exército americano no Iraque. Os eixos são produzidos pela mesma fábrica de componentes dos ônibus espaciais. O veículo, que está com Wielewicki há cinco anos, foi o último equipamento militar americano repassado ao Exército Brasileiro. O caminhão foi todo reformado, ganhou direção hidráulica e até a cor da tinta da lona que cobre a carroceria traseira é igual à usada pelos americanos.
Na rua ou na estrada, não tem quem não se surpreenda com o ronco do motor
MWM de seis cilindros e 200 cv de potência.
  Além dos carros, o juiz também reserva um tempo para as motos. Sua coleção particular conta com duas raridades: uma Harley Davidson 1984, de 1.200 cilindradas, que já integrou a equipe da Guarda Presidencial; e uma belíssima Indian 1948, 1.200 cilindradas, equipada com sidecar.

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