O homem e a máquina
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domingo, 09 de janeiro de 2011
Renato Oliveira <br>Reportagem Local 
Antônio Mendes Cardoso Filho, o 'Toninho de Uraí', é conhecido entre os colegas de profissão pelo tempo de estrada. O caminhoneiro herdou o ofício do pai há 30 anos. Com tanto tempo de boleia foi inevitável passar pelo principal apuro do ofício: quebrar na estrada. E não raros foram os momentos de ter que consertar a própria máquina.
Com 53 anos, Toninho se recorda que em outros tempos era mais complicado chamar apoio. Sem telefone público ou celular por perto, o jeito era se virar. Quando, com muita sorte, parava algum colega que ajudava o motorista a chegar na cidade para buscar auxílio ou peça para reposição.
''Naquela época tinha que descer e consertar. Não tinha como chamar o apoio. Hoje é só acionar o seguro, com oficinas especializadas para atender motoristas que ficam parados na estrada'', explica ele, que trabalha com uma Scania 124G.
Há muitos anos ele não passa por um aperto na estrada. A última vez foi há 15 anos, quando quebrou perto de Marília, no interior paulista, e um conhecido de Sertanópolis passava pela região e parou para dar socorro.
''É raro porque me preocupo com a manutenção preventiva para evitar coisas mais sérias. Mas problemas pequenos como uma pane elétrica consigo resolver'', completa ele, que transporta defensivos agrícolas.
Toninho observa que o constante medo de assaltos espantou o companheirismo entre os estradeiros. ''O povo anda com muito medo. O bandido também anda de caminhão e aí está o perigo'', ressalta ele, que em 25 anos de estrada foi assaltado pela primeira vez há 3 anos, quando teve uma carga de café roubada.
O ex-caminhoneiro e frotista Jonas Furlan viajou durante 22 anos pelas rodovias brasileiras e acredita que o ponto crucial para a conservação dos caminhões é situação das vias. Ele nota que há alguns anos o asfalto melhorou, mas ainda falta acompanhar o crescimento da frota.
''Cerca de 70% das estradas estão mais bem conservadas, mas ainda precisa melhorar. Isso diminui a chance de quebras. O problema é que o tamanho das frotas cresceu cerca de 15% de 2009 até hoje, mas as estradas são as mesmas'', argumentou.
Diferencial, motor, pneus, rodas e eixos foram os problemas mais comuns que apareceram na vida de Furlan e outros colegas de boleia. ''Isso acontece quase direto'', sublinha.
O grande problema na opinião dele é a falta de pontos de apoio para os viajantes. Ele cita os postos de combustíveis ''que não aumentaram nem melhoraram''. ''Por isso você encontra dificuldade na hora de achar um lugar para pernoitar'', atenta.
Nos tempos de estradeiro, o frotista sentia dificuldade de acionar mecânicos na hora de uma emergência. ''Além da mão de obra escassa, ainda havia a questão dos altos preços'', completa.
''Nessa época já carregava comigo peças básicas. Se aparecesse algum problema, dava para resolver. Há cinco anos os freios travaram quando ia para a Bahia. Nisso precisei tirar as cuícas e estacionários (peças do freio). Depois fiz uma 'gambiarra' até poder chegar na cidade para achar algum mecânico'', exemplifica.
Furlan se recorda de outra situação quando precisou trocar lonas de freio, resolver problemas com as bombas d'água, hélices e bicos injetores. ''Isso foi em 1992. Tive que tirar o motor, colocar na caminhonete e ir até a cidade para refazer a peça'', conta.
Como trabalhou de mecânico antes de virar caminhoneiro, Furlan já tinha noção de como mexer na máquina. ''Por isso nunca sofri muito com esse tipo de problema nas estradas'', conclui.


