O furto de carro, segundo o ladrão
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de setembro de 2001
Fernanda Ongaratto 
Sorte. Isto é o que você precisa ter para não ter o seu carro roubado ou furtado. A reportagem da Folha conversou com dois ladrões de carros e eles garantem: se o o modelo do seu carro for ''encomendado'' (o ''cliente'' determina o modelo, o ano, a cor e os opcionais do veículo que quer), não adianta, eles levam mesmo. Neste caso, travas, alarmes, segredos etc. poderão até dificultar um pouco o trabalho, mas não impedi-lo. Nesta matéria, eles contam como agem e dão informações que podem até ajudar você a ter menos chance de ter o seu carro furtado.
Embora os ladrões consigam furtar qualquer carro, o ideal ainda é colocar o máximo de aparato de segurança possível, além, claro, de um bom seguro. Luis, 30 anos, cinco passagens pela Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos de Curitiba, afirma que se o furto não for encomendado, os ladrões sempre vão preferir os carros mais fáceis. ''Se fosse o meu carro eu ia colocar tudo que existisse. Assim, fica mais demorado para trabalhar e a pessoa pode acabar escolhendo outro veículo'', aconselha.
Os equipamentos usados por esses profissionais são a mixa e o grifo. A primeira é feita artesanalmente usando um cabo de colher ou uma chave de fenda. O grifo, ou chave de cano, pode ser encontrado em qualquer loja de ferramentas. ''A mixa abre qualquer carro, principalmente os mais velhos. Depois de um ano, a própria chave desgasta a fechadura e daí fica ainda mais fácil de abrir'', explica.
Luis é especialista em furtar carros estacionados em ruas movimentadas. Cada ladrão, segundo ele, se especializa em uma situação. ''Cada um tem uma maneira de agir. Prefiro trabalhar sozinho, mas a maioria trabalha em dois ou três'', diz.
A tática usada por Luis é a seguinte: ele escolhe um carro em uma rua movimentada para não dar bandeira e chamar menos atenção espera o proprietário sair do veículo e fica de olho para saber onde ele vai entrar para calcular se vai demorar ou não. Depois se aproxima do carro e em segundos já o está levando embora.
Luis, que prefere Uno e Gol, diz também que nem as travas e as chaves tipo Code, que são codificadas e que nas propagandas de automóveis são tidas como invioláveis, são problemas para os ladrões. ''Se tiver um tempinho, dá para levar. Hoje em dia, o pessoal está levando com tudo. Quando tem trava, é só cortar a fiação atrás do freio. Nesse caso, o carro perde o freio, mas daí, é só controlar no freio de mão'', ensina.
Luis diz ainda que, para ele, o equipamento que mais dificulta a ação é a chave geral. Ela, que impede o funcionamento do motor se não for desativada, costuma tomar mais tempo dos ladrões, porque é instalada em um lugar que o proprietário escolhe. ''A gente perde um pouco de tempo procurando a chave. Mas as pessoas geralmente instalam sempre nos mesmos locais, que são entre os pedais e o volante, e a gente acaba sabendo onde procurar primeiro'', alerta.
Segundo ele, o furto funciona como uma escola. ''Um vai passando para o outro e cada vez que você mexe, você aprende mais um truque'', explica, negando que, como muitas pessoas dizem, eles aprendem a lição trabalhando em lojas especializadas em alarmes e travas.
Outro profissional dessa área, Jeferson, que depois de passar alguns dias na Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos de Curitiba, diz não praticar mais a atividade, também acredita que, quando o ladrão quer, não existe equipamento de segurança que dê jeito. ''Quando você abre um carro e o alarme toca, a gente se manda. Em alguns casos, até que dá tempo de levar o CD. Mas se o som for encomendado, daí o cara vai pegar, não tem jeito'', explica.
Jeferson diz fazer parte daquela categoria que furta só acessórios, como o som. E no caso dele, ele não levava o carro, mas só o rádio. ''Eu revendia isso por um preço bem mais baixo. Qualquer pessoa compra, é só oferecer'', comenta.
O ''ex-ladrão'' conta que o trabalho era feito tão rápido, algo de cinco segundos. Quando o proprietário percebia, ele já estava longe. ''Quando o dono se dava conta, já era'', diz, revelando que os carros mais fáceis de abrir são o Fiat Uno, que, segundo ele, até com um garfo abre, e o Santana.
Jeferson diz que, quando o profissional quer levar o carro, nem as travas são problema. ''Aquela trava que prende a embreagem e o volante, dá para soltar entortando o volante. Já quando ela é presa no freio de mão e na marcha, é só dar uma puxada com jeito que ela sai e o carro fica livre'', revela.


