Quem não gostaria de batizar o carro preferido com o próprio nome? Um juiz aposentado de Londrina, que possui um apreço especial por jipes de guerra conseguiu, meio sem querer. Originalmente conhecido como Engesa EE–12, após uma reforma que deixou de original apenas a lataria, não restou outra alternativa senão nominá-lo de Wielewicki, sobrenome de João Casemiro que rejeita o rótulo de colecionador: ‘‘sou depositário de um bem da nação’’.
  Dentro da ‘‘carcaça’’ do EE–12, o juiz aposentado optou pela mecânica de uma caminhonete D-20 4X4, da General Motors. Peças e acessórios padrões como picaretas, machados, ferramentas, giroflex e antenas vieram de outro jipe militar. Já faróis, luzes internas e ganchos foram tirados de tanques MM-41.
  O quebra-cabeças começou a ser montado em 2003. Foram dois anos até chegar na forma original. A lataria foi comprada numa loja de jipes antigos. O chassis de um mecânico conhecido de outras reformas. ‘‘O restante fui achando aos poucos. Motor, câmbio e diferencial foram em lugares dife-rentes’’, cita o juiz. ‘‘Até deixar ele andando o mais demorado foi achar o freio a disco. Isso porque optei por peças com reposição e mecânica fáceis’’, explica.
  No final, o juiz aposentado não tinha mais um Engesa EE-12 em mãos. Estava longe do formato original. Tanto que na hora de regularizar o veículo junto ao Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), um coronel que fica responsável por liberar os registros ficou curioso com a situação: carroceria Engesa, mecânica GM e peças de veículos variados.
  ‘‘Nisso ele me telefonou e disse que achou interessante o fato de restaurar jipes militares. Contei toda minha história com carros desse tipo e ele mesmo sugeriu: se você não achar ruim, coloca o nome de Wielewicki. Como uma homenagem ao esforço e reunião de tudo que tem sido feito. Fiquei surpreso na hora’’, ressalta exibindo, orgulhoso, o documento.
História
  Revirando a parte história, Wielewicki descobriu que o veículo era fabricado para exportação num primeiro momento. Foram três fases. Ele pesquisou que, na primeira, saiu de fábrica um modelo pequeno, curto. Na segunda fase ele chegou no mercado com um espaço maior entre os bancos. No terceiro momento tinha até espaço para bagagem, depois dos bancos do passageiro.
  ‘‘Esse último seria o jipe na linguagem militar chamado de comando. Não é o linha de frente, mas servia para os comandantes levarem equipamentos e rádios’’, detalha.
  Em janeiro de 2002, um grupo formado por ex-funcionários da então extinta Engesa entraram no projeto de um novo jipe militar. Uma evolução do EE-12, o Engesa-4, versão civil. Visando entrar na concorrência para a renovação de parte da frota do exército brasileiro, o jipe foi apresentado oficialmente em fevereiro de 2003, com o nome inicial de Columbus/CEPPE, e posteriormente recebeu o apelido de Marruá.
  No mesmo ano, a Agrale assumiu o projeto disposta a investir cerca de R$ 11 milhões para iniciar a produção do jipe. A empresa anunciou para o início de 2005 uma série especial limitada em 100 unidades destinada ao mercado civil, mas o objetivo principal é vencer a concorência para fornecer os jipes ao exército brasileiro. ‘‘Mas logo depois ele deixou de ser fabricado e virou peça de museu’’, comenta Wielewicki.

Trabalho é ‘compensação psicológica’

  O Engesa EE-12, ou melhor o Wielewicki, é o caçula de uma família de veículos mititares restaurados pelo juiz aposentado. Ele divide espaço na garagem com dois americanos: o Comando Dodge Modelo 42, dos anos 80, e o caminhão REO – 1964. Outra raridade é o MUTT 1964, que ao lado do primeiro são requisitados para desfilar em eventos militares de Londrina, Maringá e outras cidades do Estado.
  ‘‘Se algum soldado precisar do carro em Curitiba, peço para pegar aqui e levar. Isso é tranquilo. O que eu faço é parecido com o que o exército fazia quando os civis precisavam superar dificuldades. Assim já cedi os jipinhos e o comando’’, explica. E quando cobra alguma taxa, o juiz diz que repassa tudo para instituições de caridade.
  Wielewicki não se considera um colecionador de jipes militares. ‘‘Sou um depositário de um bem histórico da nação. Isso custou para o povo’’, define. Ele vê na restauração de antigos uma forma de compensar decisões da época de juiz, em que não podia reverter uma situação mesmo aplicando uma pena severa.
  ‘‘Como juiz criminal você pode dar a melhor sentença, mas o morto continua morto. Não dá para fazer o regresso. Pegando jipes antigos, depois de restaurados ficam como se tivessem saído de fábrica. Hoje faço uma compensação psicológica daquilo que não fazia como juiz restaurando veículos militares. É a forma que vejo de pagar uma dívida com a socie-dade’’, conclui. (R.O.)

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