É o único modelo Chrysler Roadster, ano 1929, original no Brasil. Uma raridade. Tanto que quando quis transformar num Hot Wheels, o empresário Zeca Lopes foi proibido pelos amigos antigomobilistas. Ele ouviu que seria uma afronta à história do carro no País. Além disso, o objeto que acompanha a vida do colecionador há mais tempo, cerca de 40 anos, guarda um capítulo importante da história de Londrina.
Zeca comprou o veículo para usar no dia a dia no final dos anos 1960. Acostumado com o clássico Ford 1929, ele ficou encantado quanto se deparou com o Chrysler. ''O Fordinho é mais curto. Esse não. É mais baixo e longo. O motor tem seis cilindros e 11 litros'', explica, enquanto pesca na memória o instante que resolveu funcionar o carro e dirigir até São Paulo. ''Isso foi em 1969. Fui guiando pela Dutra e chegou a cair a porta direita. Tive que amarrar com arame e continuei. Comprei do vizinho de um amigo, no Rio de Janeiro''.
E não param por aí as histórias dessa relíquia. Alguns meses depois, estava na capital paulista na época em que fazia cursinho e sonhava em ser engenheiro, quando ficou sabendo que na terra natal, Londrina, haveria uma espécie de ''Corrida de Calhambeques''. Era parte da festa de inauguração de uma emissora de televisão em Apucarana, mais precisamente no dia 26 de julho de 1969. Um dos momentos marcantes da história da Região Metropolitana de Londrina.
Batizou o carro de Apollo 11, em homenagem à nave espacial americana que desembarcava pela primeira vez na Lua naquele ano. Era também o número do canal que acabara de ser inaugurado. ''Lembro que na hora da largada (em frente ao Cine Ouro Verde) o pino do acelerador quebrou. Tive que ir até a oficina que ficava onde hoje é o Camelódromo para consertar. Quando cheguei na Avenida Paraná o comboio estava na frente do Cine Londrina (perto do Banco do Brasil). Saí atrás de todo mundo'', rememora ele, que ainda chegou em primeiro lugar entre 60 carros no grid.
''Sai acelerando tentado tirar o prejuízo. Subi em calçadas. Fui ultrapassando quem dava espaço até que na rodovia perto do Parque Ney Braga já estava na frente''.
Nos dois anos seguintes a corrida ganhou ar de competição. A exemplo da primeira, colecionadores de carros expressivos do País garantiram presença, como o milionário paulista Roberto Lee, dono de uma coleção superior a 100 carros que formava um museu em Caçapava, no interior paulista. ''O Lee trouxe duas cegonhas lotadas de Packards, Chevrolet, Ford 1929, Rolls Royce e um Renault 1906'', enumera.
Zeca conta que a ''corrida'' passava pelas prefeituras de Cambé, Rolândia e Arapongas, que premiavam o líder do comboio. Apucarana guardava a bandeirada final. ''A regra era estar vestido a caráter, com roupas da época do carro'', relembra ele, que chegou na frente ainda em 1970/71.
Da região, o empresário Neco Garcia deu o ar da graça com suas relíquias. ''Ele tinha uma coleção de Packards sensacional. Era de babar. Vários amigos participaram dirigindo os carros dele'', diz empolgado.
O dia da última corrida reservava um episódio engraçado para Lopes. Liderando a prova na reta final, ele seguia no vácuo do Fusca da Polícia Rodoviária, que funcionava como batedor da corrida. Na hora de chegar na sede da televisão, o carro da Polícia parou. Mas o Chrysler vinha atrás embalado, em alta velocidade.
''E isso aqui (apontando o Chrysler) não tem freio. E entre bater no monte de pessoas que esperavam o comboio e o Fusca, escolhi o segundo. Na pancada afundei o capô e mandei o carro longe. A brincadeira saiu caro. Tive que pagar o conserto do Volkswagem. Foi um fato muito engraçado na época'', finaliza Zeca.

mockup