Beber e dirigir

Na coluna anterior vimos que a direção alcoolizada é uma das causas principais de acidentes graves e que uma pesquisa do Programa Volvo mostra que 99% da população, de todos os grupos e de norte ao sul, querem ação contra estes crimes.
Também vimos que a fiscalização do problema é um abacaxi. Se os motoristas estão correndo na frente de uma escola, basta a colocação de uma lombada eletrônica e o problema está solucionado. Tirar um bêbado, no entanto, requer a espinhosa abordagem de um motorista, possivelmente bastante irado, de madrugada, e o risco de enfrentar uma penca de ações judiciais na manhã seguinte.
A reação típica das autoridades brasileiras quando se defrontam com um abacaxi é de o ignorar na vã esperança que vai embora sozinho. Quando isto não funciona mais, o Plano B é botar a culpa nos outros. A culpa de não fiscalizar a direção alcoolizada é do Estado, os eleitores estão começando a cobrar uma fiscalização e é hora de descascar este abacaxi.
Uma das sugestões do Fórum do Programa Volvo foi exatamente de dividir a responsabilidade desta fiscalização:
a) O Ministério da Saúde (que paga boa parte da conta dos acidentados) poderia criar uma série de projetos para avaliar o resultado de uma fiscalização ou repressão da alcoolemia. O custo seria mínimo, se as cidades que já fazem algo fossem incluídas. As cidades participando nos projetos seriam seguramente contempladas com alguns recursos a mais.
b) O Ministério tem o poder de arrastar a indústria de bebidas para oferecer apoio na forma de recursos para pesquisas, e principalmente o apoio da sua poderosa máquina de propaganda e relações públicas contra o abuso do seu produto. [Para os que acham que estou sonhando, devo mencionar que a industria de cervejarias foi bravamente representada no Fórum na pessoa do Dr. Marco Mesquita, que prometeu maior envolvimento do setor na questão de segurança.]
c) A polícia e os agentes de trânsito têm o poder de realizar ''blitzes'' (dividindo a responsabilidade entre os Estados e as Prefeituras) e o poder judiciário poderia realizar consultas nas outras cidades ''piloto'' sobre questões de jurisprudência quanto à guarda de veículos ou o uso do bafômetro. Soprar ou não soprar; eis uma questão de segurança pública ou de direito constitucional?
Todo oficial da PM, todo agente e engenheiro dos órgãos de trânsito sentem-se mais seguros sabendo que a ação planejada já deu certo em outro local. A troca de experiências e de resultados é fundamental para descobrir o que funciona e o que estoura na cara.
Haverá, como sempre, alguma reação pública. O prefeito poderá assegurar aos figurões flagrados e aos figurões ''pais de flagradinhos'' que é tudo culpa do Ministro de Saúde e que a sua cidade precisa do dinheiro. E uma boa mídia garantiria o interesse e apoio inicial do público.
Sabemos que o comportamento do motorista poderá ser mudado em questão de semanas se ele acreditar que a lei (a fiscalização) é para valer. Há páginas de exemplos na literatura técnica e é 100% certo que os resultados de um programa voltado contra a direção alcoolizada resultaria em dezenas de vidas salvas.
Nesta hora, poderemos testemunhar outra reação típica das autoridades quando se defrontam com um abacaxi já descascado: a corrida de assumir a paternidade.


Alan Cannell
Engenheiro especialista em trânsito
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