As autoridades detestam fiscalizar a alcoolemia por uma série de razões

O brasileiro não aceita os motoristas que bebem e dirigem, colocando em perigo a vida dos demais usuários da via pública, e quer a punição dos infratores. Este é o resultado da pesquisa de opinião pública apresentada semana passada no Fórum Volvo de Segurança no Trânsito em São Paulo.
O abuso de álcool no trânsito é um dos mais graves problemas de saúde pública no País. Um estudo da Abdetran (Associação Brasileira de Detrans), de 1999, sobre vítimas de acidentes de trânsito em quatro cidades (Brasília, Curitiba, Recife e Salvador), fornece a dimensão do problema. Neste estudo, durante sete dias (sem nenhum feriado) foram examinadas 1114 vítimas de acidentes de trânsito.
A distribuição por hora mostra claramente índices altos nas madrugadas de sábados e domingos, com 43% de todos os acidentes concentrados nestes dois dias. De todas as vítimas, incluindo as crianças, o bêbado que a gente atropela e o motorista bêbado que atropela a gente e as crianças, 61% tinham indícios de alcoolemia. Um em cada três estava legalmente embriagado.
A situação é semelhante em São Paulo; o número de acidentes com vítimas nas madrugadas de sábado e domingo (das 0h às 7h) é três vezes mais alto que nos dias úteis. E das dez mil mortes no trânsito por ano (isto mesmo, dez mil!), metade tinha indícios de alcoolemia, com dosagem média de 2,1 g/l. Estavam mais para lá de embriagados.
A pesquisa de opinião pública do Programa Volvo, realizada no início deste mês de agosto de 2001 pelo Instituto Bonilha, de Curitiba, cobriu nove capitais brasileiras: Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Goiânia, Campo Grande, Salvador e Recife. Na opinião do povo brasileiro, de todas as idades, motoristas e não motoristas, do norte ao sul, o pior risco no trânsito são os motoristas bêbados. Em segundo lugar é o excesso de velocidade e em terceiro a falta de respeito ao sinal vermelho.
Há um clamor para tirar os bêbados do volante: 99% querem a punição e quase todos acham que o motorista dirigindo acima do limite já merece perder a carteira (53%), receber uma multa (22%) ou até ir para a cadeia (17%).
Quase 90% dos motoristas sabem que o limite legal para dirigir corresponde a cerca de três doses. Informação têm. Porém, mais da metade desconhece a punição prevista para dirigir alcoolizado.
O Forum da Volvo discutiu porque não há mais fiscalização e ficamos sabendo que há ações nas cidades de Porto Alegre e Salvador e um programa semelhante sendo implantado em São Paulo. Alguns números prometem: os acidentes típicos da madrugada e o abuso de álcool na Avenida Paralela, em Salvador, foram reduzidos em cerca de 60% através da fiscalização eletrônica. Conclusão óbvia: bêbado em baixa velocidade é menos perigoso que um bêbado correndo.
O ideal, no entanto, seria tirar o bêbado da rua e é aqui que mora o perigo. As autoridades detestam fiscalizar a alcoolemia por uma série de razões:
- Os agentes municipais não são armados e têm pavor de abordar motoristas à noite que poderiam reagir à bala.
- O horário é inconveniente para fiscais e policiais, já que implica em horas adicionais não remuneradas, a perda do fim de semana e um turno até três ou quatro horas da manhã.
- Há o problema operacional do que fazer com o bêbado e seu veículo. As Polícias Militares relutam em guardar veículos devido ao risco de serem acusadas pelo sumiço -real ou não- de peças.
- Alguns prefeitos e governadores ainda acham que a fiscalização seria uma medida antipática.
Que estes senhores fiquem sabendo, então, que o povo não acha a medida antipática. Pelo contrário, querem ação. E provavelmente votarão nos que fazem (ou pelo menos prometem fazer) algo para melhorar a segurança pública.
Alan Cannell
Engenheiro especialista em trânsito
[email protected]

mockup