E o pedestre, o que é?




Respondendo a pergunta, diria que é o mais violentado no trânsito brasileiro. Pelo menos é o que se pode observar na pesquisa apresentada esta semana no Fórum Volvo de Segurança no Trânsito, em São Paulo. A empresa sueca, sediada em Curitiba, possui o mais longo e permanente programa institucional voltado para a sociedade, o Programa Volvo de Segurança no Trânsito, e entre outras conquistas é creditado às suas ações de sensibilização o novo código de trânsito e a obrigatoriedade do cinto de segurança.
Pelos dados apresentados no evento, o desprotegido e muitas vezes audacioso pedestre é a principal vítima de acidentes de trânsito em pelo menos 10 grandes cidades brasileiras. Veja nos índices a seguir, referentes ao ano de 1999, onde o pedestre está morrendo mais: (O Denatran e grande parte dos órgãos responsáveis ainda não tabularam os dados de 2000).
1.Belém (81,96 % das mortes de trânsito são por atropelamento), 2. Fortaleza (71,45% das mortes de trânsito são por atropelamento), Recife (62,42% das mortes de trânsito por atropelamento), Manaus (59,16% das mortes de trânsito por atropelamento), 5. São Paulo (51,27% das mortes de trânsito por atropelamento), 6. Porto Alegre (49,50% das mortes de trânsito são por atropelamento), 7. Rio de Janeiro (44,89% das mortes de trânsito são por atropelamento), 8. Salvador (42,72% das mortes de trânsito é por atropelamento), 9. Brasília (41,05% das mortes de trânsito são por atropelamento), 10. Londrina (34,32% das mortes de trânsito são por atropelamento).
Na média o Denatran informa que 44% por cento das mortes em acidentes de trânsito no Brasil são por atropelamento. Por sua vez a Companhia de Engenharia de Tráfego da cidade de São Paulo informa que 45 pessoas são atropeladas por dia naquela capital. Por ano, são mais de 16 mil atropelamentos. Desses, 862 resultam em mortes.
Evidentemente que dada à parcialidade dos dados é injusto dizer que Belém é a cidade mais perversa em relação ao pedestre, mesmo porque os órgãos públicos que forneceram os números não esclarecem se eles são dos municípios ou das regiões metropolitanas. Curitiba, por exemplo, possui dados de pelo menos quatro fontes distintas, O BPTran que coleta dados apenas do município de Curitiba, desconsiderando as rodovias que cortam a cidade, o IML - Instituto Médico Legal que apresenta dados da região metropolitana, a Policia Rodoviária Estadual que apresenta dados apenas das rodovias estaduais que cortam a região metropolitana e finalmente a polícia Rodoviária Federal que lança os dados das rodovias federais (BR116, BR277 e outras) no seu placar nacional de acidentes das estradas. Assim, O Denatran, que recebe os números dos Deterás estaduais não fica sabendo dos números exatos. Além do que, os números refletem na maior parte das vezes apenas, os números do local do sinistro. Não se contabiliza as mortes verificadas após nos hospitais.
Ainda em Curitiba, os dados do IML, no período de janeiro a abril 2000, apontam 301 mortos por atropelamento, enquanto isso o BPTran, Diretran, Detran e Denatran juntos apresentam apenas 29 mortos por atropelamento durante o ano todo de 2000.
Apesar da reclamação ser antiga, apesar da evolução da informática os órgãos responsáveis ainda não conseguiram formatar um padrão único nacional para coletar, discriminar, tabular e informar os dados de acidentes de trânsito no Brasil. E sem estes números fica quase impossível conhecer a realidade do trânsito nacional. Não conhecendo a realidade fica ainda mais impossível ainda buscar soluções para esta verdadeira guerra civil não declarada.
A lembrança permanente do assunto segurança no trânsito por uma empresa privada como a Volvo é única e merece todo o aplauso da sociedade. Ao pedestre as condolências e o alerta para que tome cuidado, pois sair para as ruas mesmo que a passeio há muito deixou de ser divertimento. Sair para as ruas é como deixar a trincheira, desarmado, para enfrentar tanques e canhões.


Ulisses Iarochinski
Jornalista especialista em trânsito
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