O ASSUNTO É...
O alcoolismo é um problema de dimensões muito sérias na nossa sociedade e no mundo atual e um fator agravante que contribui para o seu desenvolvimento é a extrema tolerância (quase incentivo) com a qual é tratado. O uso do álcool é visto como fazendo parte da nossa cultura, sendo a permissividade ao seu uso extrema.
É considerado normal uma pessoa beber com certa frequência e até mesmo se embriagar em ocasiões especiais (festas, comemorações, shows, etc.).
Há uma relação direta do consumo de bebidas alcóolicas com diversas doenças, o número de acidentes de trânsito e de trabalho, a diminuição da produtividade em empresas, a violência (taxa de homicídios, suicídios, agressões, infrações).
As políticas públicas sempre voltaram-se para a repressão ao uso das drogas, porém em relação ao álcool se observa uma tolerância, sendo comum a venda de bebidas alcóolicas a menores. Em contrapartida, muito pouco se faz no campo da prevenção, através da educação para a saúde.
Infelizmente, as drogas lícitas, em particular o álcool e o tabaco foram, através da publicidade, elevadas à condição de promotoras de sucesso, poder e bom gosto. A mídia tem um papel preponderante neste fenômeno, já que vendem sucesso, conquista, felicidade, ligados a condutas de ingestão de álcool ou cigarro.
O abuso de álcool pode ser considerado como o problema número um de saúde pública entre jovens. O governo, em suas campanhas, deixa claro os perigos da maconha e da cocaína e ignora o álcool. Um dos fatores importantes que levam a esta situação é o fato de que os adolescentes sabem que não vão ter overdose e existe a comodidade de que a bebida é legalizada e de preço relativamente acessível. Também o ato de beber é visto pelos jovens como sendo um comportamento adulto, o que vem a incentivar os adolescentes ao uso do álcool como forma de auto-afirmação.
Certos números demonstram o alcance de tal problemática:
- em 1999, foram consumidos mais de 1.500.000 litros de bebidas alcóolicas;
- 90% da população do Brasil consomem bebidas alcóolicas de forma ocasional;
- 30% dos que bebem apresentam abusos e problemas com o consumo;
- 10% criam dependência, que chamamos alcoolismo (Carazzai, 2000);
- pesquisa do centro brasileiro de informações sobre drogas psicotrópicas (CEBRID) mostra que 70,4% dos estudantes de 1º e 2º graus da rede estadual da cidade de São Paulo começam a beber por conta própria entre 10 e 12 anos;
- pesquisa feita em Porto Alegre revela que a idade do primeiro gole é 10 anos e do primeiro porre, 13 anos.
Esta permissividade em relação ao uso do álcool reflete em outra grande problemática da nossa sociedade atual: o trânsito. Em geral, as pessoas não consideram as alterações no desempenho no trânsito trazidas pelo álcool como importantes, e não são poucas as tristes histórias de mortes de jovens vítimas da inconsciência e da falta de informação.
Os efeitos do álcool no trânsito podem ser devastadores, sendo que o álcool produz no indivíduo as seguintes alterações quanto às capacidades e pré-requisitos para uma condução segura:
- Sob a ação de bebidas alcóolicas, ainda que em doses insuficientes para prejudicar a motricidade, os condutores se sentem corajosos, ousam mais, não consideram os riscos e têm dificuldade para considerar as possíveis consequências dos seus atos. Podemos dizer que a percepção de risco fica comprometida;
- Também a possibilidade de avaliar as suas próprias condições para a direção veicular se torna inexistente, desta forma, o indivíduo que se alcooliza relata ficar mais esperto depois de algumas doses;
- O álcool inibe as funções do córtex cerebral inicialmente, produzindo no condutor um cansaço maior do que o habitual, provocando sonolência e fadiga muscular e sensorial;
- Pelo uso do álcool as funções sensoriais se tornam lentificadas, como o tempo de reação, julgamento, decisão, etc. Também a visão apresenta alterações, ficando o indivíduo comprometido quanto à avaliação das distâncias e velocidade;
- Na pessoa que se encontra alcoolizada, a atenção concentrada a um único objeto produz sonolência, e no trânsito, em geral, olhamos de forma fixa na mesma direção, outro grande risco para a direção segura;
- No condutor alcoolizado pode haver uma importante falta de coordenação motora, transtornos de equilíbrio, diminuição do rendimento muscular e diminuição do controle dos movimentos.
E então, que cuidados devemos tomar no trânsito?
- Não há por que tomar café forte ou amargo, leite, banho frio, dar caminhadas ou tomar ar. A pessoa fica mais ativa, mas tão bêbada quanto antes. A eliminação ocorre de forma natural e é lenta, podendo levar de 6 a 8 horas;
- Nunca aceite carona de alguém alcoolizado;
- Ofereça-se para dirigir se alguém que conhece não se encontrar em condições;
- Tente impedir alguém embriagado de dirigir;
- Nunca insista para que alguém tome mais um drinque;
- Se for sair e souber que vai beber - vá de táxi;
- Combine com os amigos quem será o motorista da vez (Carazzai, 2000).
Devemos, como sociedade, encarar a problemática do álcool de acordo com a ótica do problema social, de saúde pública, que é a real dimensão do uso do mesmo em nosso País. E a possibilidade de resolução está em cada um de nós, numa mudança de mentalidade, de busca de transformação desta realidade séria e preocupante que hoje se apresenta mascarada na forma da permissividade e tolerância.
Professora Adriane Picchetto Machado é psicóloga e especialista em trânsito





