O ASSUNTO É...
É pura verdade, foram cerca de 15 mil vítimas no ano passado e serão outras 15 mil este ano. Se os referidos bandidos fossem gangues de marginais armados, a Grande Curitiba estaria sob Lei Marcial, sendo patrulhada 24 horas pelo Exército. Acontece que os bandidos eram (e são) pessoas mais ou menos comuns que apenas não respeitaram um sinal vermelho, dirigiram um pouco rápido demais ou tomaram um copo a mais. Gente como nós.
Entre os meses de janeiro 2000 e março 2001, o sistema SIATE tratou de 13.165 vítimas de acidentes de trânsito em Curitiba e região metropolitana. Como nem todas as vítimas de acidentes são tratadas pelo SIATE, estima-se que o total de número de vítimas por ano está em torno de 15 mil. A grande maioria dos curitibanos acha que acidentes simplesmente acontecem: é azar. E toleramos este preço pago pelo direito de ir e vir de carro.
Se nós não somos bandidos, será que a cidade é a vilã? Quase 60% das vítimas, ou seja, nove mil pessoas, sofrem traumas em colisões, atualmente há apenas 25% em atropelamentos. Há 20 anos esta situação era invertida: havia muito mais vítimas de atropelamentos que colisões. O que mudou?
Em primeiro lugar, a Grande Curitiba mudou. Criaram-se dezenas de bairros novos na periferia, uma nova geração cresceu nas ruas e não no campo e adquiriu uma cultura de trânsito. E o povo comprou carros quase um milhão. O sistema viário da Grande Curitiba é formado, quase na sua totalidade, de vias secundárias, isto é, ruas cheias de veículos, ladeadas de casas, fábricas, escolas e lojas. Juntam-se caminhões, ônibus, carros, ciclistas e pedestres numa misturas de tráfego local e tráfego de passagem.
Como a capacidade das ruas é limitada, criou-se corredores formados por ruas de mão única, os binários e trinários. O problema é que quando um binário cruza com um trinário, a cidade se vê obrigada a instalar seis semáforos para controlar os cerca de 200 mil movimentos conflitivos por dia. Basta um motorista furar o sinal para provocar uma colisão e causar traumas aos ocupantes de dois (ou mais) veículos. Atualmente temos quase mil semáforos na cidade, justamente nos locais onde acontece o maior número de colisões.
A mistura de trânsito de passagem e funções urbanas não representa um uso saudável e democrático do espaço viário; representa uma mistura letal, ineficiente e poluidora. Pelas leis da física, se um carro (moderno) atropelar uma criança a 16 km/h, 0% das vítimas morrem; a 32 km/h, 10% morrem; a 50 km/h, 50% morrem e a 65 km/h, 85% morrem. Se pudermos concordar que nossas crianças merecem uma chance de, no mínimo, fifty-fifty, então a velocidade máxima permitida numa via com escolas e pontos de ônibus só poderia ser de 50 km/h.
Todas as vias que compõem a rede primária da Grande Curitiba já estão seriamente comprometidas por funções urbanas, especificamente: os trechos urbanos das BRs 116, 277 e 376. Infelizmente, teremos que incluir o Contorno Leste, uma via ainda não inaugurada, nesta lista. Existem propostas para construir, sem acessos adequados, enormes conjuntos habitacionais junto ao Contorno. Atrás deste povo virão as escolas, o comércio e os pontos de ônibus nos dois lados da via, ou seja, o sujeito mora no lado esquerdo e terá que cruzar as duas pistas para chegar ao seu ponto de ônibus.
Portanto, o Contorno Leste que deverá ser inaugurado no ano 2002, já que há uma estreita relação entre o andamento de obras com os anos eleitorais deverá ter uma velocidade limitada a 50 km/h. Caso o limite seja superior, será mais uma via planejada para ser uma campeã de mortes.
O trânsito é o maior problema da violência urbana da cidade e é uma questão de tempo antes de a sociedade civil, através do Ministério Público, passe a examinar por que temos 15 mil vítimas por ano. Afinal, quem são os bandidos? Não gostaria de ser o engenheiro que assinasse ordem de serviço para colocar placas de 100 km/h. E se o Contorno já possui uma definição legal de via primária, tampouco gostaria de ser o técnico que liberasse linhas de ônibus, loteamentos ou conjuntos habitacionais, nem o prefeito que tolerasse mais uma invasão junto à rodovia...
Alan Cannell
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