O ASSUNTO É...
A Psicologia Social é a área da Psicologia que trabalha com a análise da realidade social, política e sociológica de uma determinada comunidade, estudando as relações entre indivíduos, grupos e sociedade.
Aborda o intercâmbio existente entre indivíduo e grupo o quanto um interfere no outro e a importância do grupo social imediato na formação do indivíduo.
É uma área já sólida, com extensos trabalhos sobre comportamento social, pressão social, educação de massa, estereótipos, papéis, valores, cultura, etc...
Há também a Associação Brasileira de Psicologia Social -ABRAPSO -, entidade muito atuante e que congrega um grande número de profissionais no Brasil e tem, inclusive, publicações de grande qualidade e eventos periódicos para a apresentação de trabalhos.
Como psicóloga de trânsito e estudiosa de Psicologia Social (especialista na área) percebo que há grandes inter-relações entre as duas áreas (social e trânsito) listadas a seguir algumas:
1 - O trânsito é uma questão social, que reflete diariamente as incoerências e conflitos existentes numa determinada sociedade competição, falta de educação básica, falta de solidariedade, ausência de consciência, de cidadania. O trânsito não paira acima da sociedade, é sim, fruto dela.
2 - A situação caótica que às vezes percebemos no trânsito reflete a seguinte frase: O caos é obra de anos. Isto é, há um fundamento histórico para termos a realidade atual, o caos não é uma obra do acaso, e sim de uma sociedade desigual, desorganizada, carente de valores éticos.
3 - A crise da ética pela qual passa nosso país atualmente também se reflete no trânsito: as pessoas desprezam valores éticos como responsabilidade, solidariedade, civilidade e se comportam, em geral, como se não houvessem regras que direcionam os condutores.
4 - A relação público x privado também é vista como deturpada no trânsito: o número público (ruas, espaços comuns) não é visto como meu, é como uma terra de ninguém, onde não há lei ou regras. O privado se manifesta como, por exemplo, o exagero das reações quando alguém encosta no carro do outro, causa de mortes até; porque o carro é visto como uma extensão do motorista, e muitas vezes pode ser comparado à uma casa (as pessoas comem, conversam, namoram nele).
5 - Também os trabalhos sobre pressão social, estereótipos, grupos, etc., demonstram imensa afinidade com as questões de trânsito.
Analisando estas informações, podemos perceber que há um imenso campo para pesquisa nessas duas áreas e é preciso, cada vez mais, promover trocas de informações e desenvolver trabalhos conjuntos, utilizando a Psicologia Social naquilo que ela é mais interessante (a meu ver): o entendimento da realidade social e a ação sobre as problemáticas desta realidade.
Assim, acredito que é possível abrir um espaço para a psicologia do trânsito nas disciplinas de Psicologia Social nas Universidades, nos cursos de Psicologia, onde geralmente é uma disciplina com carga horária maior (às vezes até quatro semestres) e oportunizar aos novos psicólogos o contato com a Psicologia do Trânsito, desmistificando a visão que se tem de que psicólogo de trânsito só trabalho com testes, nas Avaliações Psicológicas de Detran.
Também penso que os psicólogos sociais podem oferecer grandes e valiosos subsídios para esta nova área que é a Psicologia de Trânsito, contribuindo para que a mesma conquiste seu lugar na Psicologia.
Profª Adriane Picchetto Machado é psicóloga especializada em trânsito.
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