Muitas vezes não paramos para pensar qual o real significado de uma palavra e quais os significados subentendidos na mesma. Proponho que analisemos esta palavra: ''acidente''. Largamente utilizada para definir situações de trânsito em que a maior disfunção possível no sistema, aconteceu: dois veículos colidiram, um veículo atropelou um pedestre, e outras infinitas possibilidades.
Usamos esta palavra de forma quase que automática, e pensando na sua significação, lembramos que qualquer acidente se encontra alheio à vontade, podendo ser explicado como uma ação do destino ou da má sorte, como queiram. Imediatamente nos ocorre a sensação de que a palavra ''acidente'' traz consigo a impossibilidade de entendimento do fato de forma racional, também trazendo a noção de que não há como prever o fato que ocorreu - foi um acidente... Esta palavra marota parece sugerir que ninguém teve culpa pelo ocorrido, afinal... foi um acidente, foi sem querer..., exonerando os participantes de qualquer responsabilidade possível.
Desta forma, ao mesmo tempo em que falamos ''houve um acidente'' ou ''aquela pessoa se acidentou'', estamos falando de uma situação que escapou ao controle, que foi inevitável, imprevista, resumindo: que não dependeu de nós mesmos para o seu acontecimento.
Obviamente, isto é algo completamente errado. A palavra ''crash'' , que define os acidentes de trânsito em inglês, deveria ter sua correspondente em português nos termos ''desastre'' ou ''sinistro'', indicando o que é observado, somente, sem passar noções de não culpabilidade ou outras que no fundo, são muito perniciosas.
O uso da palavra ''desastre'' traz em si a noção de que a situação ocorrida não é acidental, é evitável, é previsível e é uma consequência de uma possível série de ações/reações que podem ser compreendidas, explicadas e analisadas.
Isso significa que todo ''desastre'' de trânsito pode ser compreendido e explicado em termos de causas. Muitas vezes as três categorias principais dos erros no trânsito explicam a grande maioria deles: negligência, imperícia e imprudência. Algumas vezes os três andam juntos, num só condutor...
Tratar as disfunções do trânsito como ''desastres'' poderia auxiliar a conscientizar os participantes do trânsito em relação à sua própria responsabilidade, tão esquecida em nossos dias. Também seria possível, através desta concepção, estudarmos com mais cientificidade os mesmos, buscando o entendimento racional da situação e até mesmo obtendo dados para pesquisas futuras que possam auxiliar a compreender o comportamento humano no trânsito.


Prof Adriane Picchetto Machado é psicóloga especializada em trânsito

mockup