Algumas avaliações superficiais dão conta que o usuário de veículos no Brasil já não está tão preocupado com o uso do cinto de segurança. Aquele fervor inicial logo após a sanção presidencial do Código de Trânsito parece ter se esmaecido. Nesse meio tempo houve a imposição de uma equivocada resolução do Contran que permitia a fiscalização multar somente se o veículo fosse parado para a averiguação do uso do cinto. Dessa forma muitos que no início foram multados em movimento, ou seja, a fiscalização multava também quando observava que o veículo passava pelas vias e estradas com os ocupantes sem o cinto.
Independente do fato da resolução ainda existir ou não, o que importa não é a multa, mas a segurança no trânsito. Por isso vamos nos repetir mais uma vez nessa coluna para lembrar algumas informações, curiosidades e mitos envolvendo este equipamento de proteção individual extremamente necessário e importante.
A primeira patente de invenção do cinto de segurança foi requerida, em 11 de maio de 1903, pelo francês Gustave Dèsirè Lebeau. Estudos muito sérios foram feitos nas principais instituições de pesquisa do mundo e comprovaram que há uma chance em 1000 de salvar-se sem o cinto de segurança e que o uso do cinto de segurança reduz em 60% o número de mortes. Combinado com o airbag a redução pode atingir em 80% das mortes que ocorreriam nos acidentes de trânsito (cinto reduz 60% e o airbag outros 20% das mortes).
Testes realizados em importantes laboratórios europeus concluíram que uma criança, de 25 Kg, no banco traseiro, no momento da colisão a 50 Km/h, é lançada para frente com o peso igual ao de um filhote de elefante (2,5 ton.). O que corrobora com a importância do uso do cinto de segurança também no banco traseiro dos veículos. De nada adianta os passageiros dos bancos dianteiros estarem usando o cinto se os demais passageiros no banco traseiro não o estiverem. Vão morrer da mesma forma, pois sabe lá o que é receber o impacto pelas costas de um elefantinho?
Para aqueles que gostam de argumentar junto à fiscalização ou às câmaras de TV quando flagrados sem o cinto, aí vão alguns esclarecimentos sobre alguns mitos admitidos por estes infratores. A estes mitos contra-argumentamos com a verdade dos fatos.
Primeiro mito: ''Eu não preciso usar cinto de segurança quando estou dirigindo em baixa velocidade, nem em trechos curtos''. Fato: Em cada quatro acidentes, três acontecem dentro de uma faixa de l0 km de casa. O número de acidentes acontecidos em ruas das cidades é muito mais alto do que nas estradas.
Segundo mito: ''Eu não quero ser apanhado numa armadilha pelo cinto de segurança; é muito melhor estar livre quando ocorre um acidente''. Fato: A chance de morrer é 25 vezes maior se você for lançado para fora do carro. O cinto de segurança evitará que você seja arremessado através do pára-brisa e atirado contra árvores, pedras ou outros veículos, arrastado pelo chão, ou ser pego por outros veículos e até pelo seu próprio. Se você estiver usando o cinto de segurança, muito provavelmente você estará consciente depois de um acidente, para se livrar e ajudar outros passageiros.
Terceiro mito: ''Mulheres grávidas não devem usar cinto de segurança''. Fato: De acordo com as associações médicas, a mulher grávida e o feto estarão mais protegidos com o cinto, devendo-se apenas observar que a presilha do cinto esteja o mais baixo possível, sobre a pélvis.
Quarto mito: ''Eu não preciso usar cinto de segurança porque eu sou realmente um bom motorista''. Fato: Não importa que você seja um bom motorista. Você nunca poderá controlar o outro carro que pode vir vem em sua direção, por causa de uma falha mecânica.
Quinto mito: ''Eu não preciso do cinto. Em caso de acidente, eu posso me proteger com meus próprios braços''. Fato: A 50 km/h o impacto em você e nos demais passageiros é brutal. Não existe maneira dos seus braços ou pernas protegê-los neste tipo de colisão. A velocidade e o impacto são muito grandes. A força do impacto à velocidade de I5 km/h é equivalente à de um saco de cimento de 90 kg caindo da altura do primeiro andar de um edifício. O impacto de um choque a 50 km/h corresponde a uma queda de um edifício de 4 andares.
Sexto mito: ''Muitas pessoas ficariam ofendidas se eu pedisse a elas que colocassem o cinto de segurança''. Fato: Pesquisas mostram que a maioria das pessoas colocaria prontamente e de boa vontade o cinto de segurança se você o solicitasse.
Sétimo mito: ''Eu absolutamente não acredito que isto irá acontecer comigo''. Fato: Todos nós seremos envolvidos num acidente a cada 10 anos. Uma em cada 20 pessoas sofrerá um sério acidente e em cada 60 acidentes, um será fatal. Isto é estatística e não palpite.
Oitavo mito: ''Eu posso bater minha cabeça no pára-brisa enquanto estiver usando o cinto de segurança, assim não há como ele possa me ajudar em um acidente''. Fato: Cintos de segurança são projetados de forma a permitir que os usuários possam se mover livremente. Eles possuem dispositivo que trava se seu carro der uma freada brusca. Este dispositivo evita que você bata a cabeça, ou seja, jogado fora do carro.
O Brasil parece que ainda não se conscientizou de que as leis do trânsito são para proteger a vida e prefere acreditar em políticos ignorantes que alardeiam a indústria da multa. Porque será que estes políticos travestidos de comunicadores só aparecem para falar de trânsito quando é para se digladiarem entre si e nunca para efetivamente defenderem a vida e a segurança?


Ulisses Iarochinski é jornalista especializado em sistemas de gerenciamento de trânsito.

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