Enquanto um buraco da BR 116 é mostrado no Jornal Nacional, um projeto brasileiro de atendimento de emergência é premiado em Nova York.
O sistema de Tele-Exame -avaliação de vítimas de acidentes à distância- desenvolvido pelo Eng. Dário Monteiro da Ecovia Caminho do Mar S/A, ganhou o Prêmio ''2001 Toll Innovation and Excellence Award''.
As rodovias ''pedagiadas'' nos Estados Unidos não oferecem os mesmos serviços que as nossas estradas: em geral, o usuário americano liga para uma central e solicita o serviço público necessário, como atendimento de emergência, guincho etc.
Como todos os nossos impostos estão destinados aos bancos, os serviços públicos nacionais deixam muito a desejar, e, em consequência, a concessionária acaba fornecendo ambulâncias, médicos e materiais de socorro às vítimas. Muitas vítimas de acidentes são moradores de loteamentos clandestinos ao longo da própria rodovia e, em alguns estados, por falta de um serviço público, as vítimas de qualquer violência ou doença estão simplesmente colocadas à beira da estrada à espera do serviço de atendimento.
Como não é viável colocar um médico em todas as viaturas, os ''para-médicos'' da Ecovia tinham que repassar informações sobre os ferimentos das vítimas via rádio. Esta demora e a falta de precisão -especialmente nos primeiros minutos após um acidente- pode ser crucial para a vida da vítima.
Para melhorar o atendimento, o setor de operações instalou, em cada viatura, um equipamento que capta imagens digitais (30 ''frames''/s) e manda os dados via tecnologia celular (USB). O médico de plantão recebe a informação projetada num telão, via um PC. Em termos práticos, o tempo de análise e diagnóstico foi reduzido por 40% nos cinco primeiros meses de operação. Salvam-se vidas.
Na rodovia que liga São Paulo e Rio de Janeiro, o principal problema de segurança encontrado pela concessionária Nova Dutra foi o alto índice de atropelamentos: 272 mortos em 1997. É claro que a especificação de melhorias não previa obras voltadas exclusivamente para a segurança; refletindo a completa falta de sensibilidade do setor rodoviário para com a vida dos usuários.
Mesmo assim, a empresa estabeleceu o Programa ''Vida na Dutra'', contemplando coleta de dados, análise, investigações nos locais de maior risco e a construção de equipamentos voltados para pedestres. A grande maioria destas obras foi de baixo custo, como a colocação de acessos para pedestres em 316 viadutos, a reforma de 34 passarelas e instalação de mais 23 travessias.
O número de fatalidades caiu 43%, ou seja, 100 mortes a menos por ano.
As empresas não foram obrigadas a tomar uma atitude para baixar o número de mortes: os técnicos envolvidos a fizeram por espírito de profissionalismo. Talvez o lado mais positivo destas ações é a criação de uma tecnologia nacional para melhorar a segurança nas estradas. Outras concessionárias estão seguindo estes exemplos e exigindo clausulas sobre segurança nos contratos novos. Para uma empresa, gastar menos com serviços de atendimento, é uma ação sensata, além de ótimas relações públicas.
Por uma estranha coincidência, as obras de baixo custo nunca interessam os departamentos rodoviários nem os políticos e ''lobby'' do setor. Assim, nas rodovias públicas temos buracos, pontes sem proteção lateral, barreiras de concreto dignas de ruínas arqueológicas e acessos clandestinos aos milhares. Prefiro pagar pedágio: dói, mas machuca o carro -e a gente- menos que a insegurança.
Alan Cannell
Especialista em trânsito
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