Desde a publicação do novo Código de Trânsito Brasileiro em 1998, as antigas Auto-Escolas se descobriram frente a uma grande exigência: passar a atuar como Centros de Formação de Condutores (CFC's), com a obrigatoriedade de formar novos motoristas através de aulas teóricas e práticas, isto é, se transformando, a partir daquele momento em ''escolas'' no sentido real e mais amplo possível da palavra.
Dentro deste novo contexto, revelaram-se palavras até então um pouco estranhas aos profissionais que atuavam nos mesmos: qualidade da formação, avaliação, ensino-aprendizagem, técnicas de ensino, didática, material áudio-visual, planejamento de ensino, objetivos instrucionais, métodos e técnicas de ensino, acompanhamento, motivação, etc... Isto é, querendo ou não, conscientes ou não deste novo cenário, a realidade mudou, e muito...
Já não podemos aqui falar de amadorismo, de aprendizagem para ''tirar a carteira'', de macetes e ''decoreba'', de ausência de profissionalismo, de imediatismo, de treinar somente nos locais estratégicos, etc,etc...
A missão mudou: agora, a responsabilidade é maior. Na verdade ela sempre foi imensa, que é habilitar novos condutores, e isso não pode ser visto como algo simples, já que envolve a educação de clientelas diversas, com características muito particulares (adolescentes, idosos, adultos, homens, mulheres etc.) com vistas a uma mudança comportamental. Ensinar a dirigir é fácil, é só ensinar a ação sobre os comandos, algumas placas e leis e pronto. Ensinar a ser motorista e participar do trânsito é muito mais do que isso -é ensinar a conviver, a se comportar adequadamente num contexto que é extremamente dinâmico e perigoso. É conscientizar das responsabilidades e do risco da suas atitudes. Resumindo, um processo de promoção do desenvolvimento do ser humano.
E como os CFC's tem administrado a sua nova missão?
Me parece que há uma crise de identidade instalada. Ainda não é possível verificar que estas preocupações estejam sendo transformadas em ação, por um lado devido ao contexto extremamente complicado onde estas empresas se inserem ( sistema de trânsito), por outro lado pelas dificuldades relativas à concorrência que não permite aos diretores e profissionais mais preocupados e conscientes alçar grandes vôos.
Porém, a sociedade já nos dá indícios de esperar, como clientes, a qualidade da formação oferecida pelos Centros de Formação. E o que fazer?
É preciso que os CFC's estejam conscientes do seu papel social, da sua missão, buscando ao máximo se profissionalizar (diretores, instrutores, funcionários em geral, realmente envolvidos com a questão do trânsito).
Os instrutores teóricos devem se conscientizar que um processo de aprendizagem baseado somente na memorização de informações não leva a uma compreensão. A formação do aluno envolve muito mais do que a aplicação de conteúdos, e a tarefa do instrutor é muito maior do que convencer -é provocar no aluno um impacto, que o leve a pensar, a tomar consciência da realidade que o espera fora da sala, nas ruas.
O quanto seus alunos estão envolvidos na sua aula? Se mostram motivados ou apenas a suportam? Se ensinar de fato não é passar conhecimento, mas estimular o aluno à buscá-lo, como seus alunos se mostram? O que eles fazem depois de receber sua aula - descobrem novidades, agem, buscam? ''Grande parte do comportamento e das atitudes dos alunos é provocada pelo comportamento, pelos métodos e pelas atitudes do professor'' ( Piletti, 1995)
O papel do professor (instrutor) é extremamente importante pois ele tem grandes possibilidades de promover o desenvolvimento de outros seres humanos. Para isso necessita de um bom domínio do conteúdo, de sólidos conhecimentos de didática, da consciência de seu papel profissional, da certeza de sua escolha, de gostar do que faz e de um arsenal de técnicas e métodos que facilitem a aprendizagem de seus alunos.
Profª Adriane Picchetto Machado,
psicóloga especialista em trânsito
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