Em geral, uma pessoa leva cerca de 1 segundo para racionalizar uma decisão ante um imprevisto. Este tempo é gasto para percorrer 15 metros a 50 km/h. Podemos dizer que um motorista dirigindo a 50 km/h percorre 30 metros até conseguir frear seu veículo, sendo 15 metros gastos durante a reação ao imprevisto e que atitude tomar e outros 15 metros de ação efetiva dos freios.
Se esta frenagem for feita sobre pista molhada a distância percorrida durante a ação dos freios sempre será em dobro. Podemos estimar para situações ideais (única e tão somente) e segundo princípios da física, as distâncias percorridas para a parada total do veículo ante um obstáculo imprevisto. Podemos estimar qual é a margem de distância que devemos manter do veículo posicionado à frente. Para ganhar uma margem de segurança devemos ter dois segundos de reação e para termos o dobro da distância a ser percorrida.
Uma campanha dos governos escandinavos convidou os motoristas a reduzirem sua velocidade com a mensagem: ‘‘Motorista faça uma prova, baixe sua velocidade em 10 km/h. Você vai trafegar com maior segurança’’. A experiência revelou que bastou 10 por cento dos motoristas que excediam os limites de velocidade, aceitar a proposta para o número de mortes diminuir em 800 por ano.
O projeto europeu DUMAS (Developing Urban Management and Safety) tem buscado alternativas para o gerenciamento da velocidade em áreas urbanas. O DUMAS tem produzido relatórios e análises sobre estatísticas de acidentes, controle de velocidades, usuários vulneráveis e fatores políticos da administração do trânsito.
Programas de gerenciamento de velocidades na Dinamarca, Inglaterra e Holanda apresentam soluções como: ‘‘administrar velocidade em sistemas de trânsito necessariamente não implica em redução da velocidade dos veículos, seja por leis, fiscalização, campanhas ou avançados equipamentos, mas sim por um planejamento e design da rede viária, relocando as velocidades para as vias apropriadas’’.
Um dos elementos chaves no planejamento da administração do sistema de velocidade é a classificação e hierarquização das vias. Para vias em áreas residenciais a velocidade máxima deve ser de 30km/h e nas vias estruturais 60 km/h. Os resultados apresentam uma redução de 2 a 4 por cento no número de acidentes a cada 1 km/h na velocidade média dos veículos. No caso de acidentes envolvendo usuários vulneráveis a correlação com a velocidade é altamente comprovável. Considerando que 85 por cento dos pedestres morrem numa colisão com um veículo a 64 km/h, a implantação de zonas denominadas ‘‘traffic calming’’ possibilitou que apenas 5 por cento dos pedestres em colisão com veículos a 32 km/h continuaram morrendo. As mudanças de velocidade não afetam somente o índice de acidentes. Outros parâmetros como percepção do risco, obstáculos de efeitos e poluição sonora são fortemente relatados com velocidades altas.
A velocidade é também um importante fator quando se discute qualidade de vida nas cidades, estética pessoal, preservação de locais históricos e outros aspectos de meio-ambiente. A experiência européia tem demonstrado que significativos efeitos na segurança têm sido obtidos com o gerenciamento da velocidade. As zonas calmas de trânsito (traffic calming) com velocidade máxima de 30 km/h têm permitido uma redução de 15 a 80 por cento no número de acidentes envolvendo ferimentos com pedestres. Na padronização das redes de vias (residenciais, arteriais, rápidas), os efeitos na redução dos acidentes chegaram ao patamar de 45 a 65 por cento.
Estes estudos estimam que uma redução de apenas 5 km/h nas redes viárias da União Européia permitirá uma redução de mais de 11 mil mortes e 180 mil feridos e uma economia de 30 a 40 bilhões de euros.
Ações educativas devem ser implementadas junto com as medidas técnicas. A imposição de limites geralmente encontra incompreensão. Assim antes de qualquer solução técnica é necessária uma ação decisiva junto ao elemento que causa 90 por cento dos acidentes, ou seja, o homem. É necessário educá-lo, sensibilizá-lo, conscientizá-lo, informá-lo.
O exemplo a seguir é algo que pode ser adotado: Você está dirigindo a 100 km/h em uma rodovia cujo limite é 90 km/h. Você está com muita pressa e tenta dirigir a 100, apesar do limite de 90. O que certamente vai acontecer se você continuar nesta velocidade? 1).Você terá um ganho de tempo de mais ou menos 7 minutos. Na maioria dos casos este ganho será apenas de 3 a 4 minutos. 2).O consumo de combustível aumentará em 0,8 litros, custo: R$ 0,60. 3). O desgaste de pneu aumentará em 50 por cento, custo: R$ 0,25. 4). O desgaste do veículo aumentará, custo: R$ 0,15. Conclusão: Seu ganho de tempo será de 3 a 4 minutos. Seu custo será de R$ 1,00. Isto corresponde à uma hora de trabalho de para quem recebe R$ 192,00 por mês com uma carga horária de 48 horas por semana. E você ainda perde este dinheiro, pagando impostos. Além disso o que mais pode acontecer? O seu risco de estar envolvido num acidente aumentará de 20 a 40 por cento. Se você estiver envolvido num acidente o risco de que você venha a se ferir gravemente ou morrer será muito maior.
LIMITES DE VELOCIDADES
PAÍS - URBANO - ESTRADA - AUTO-ESTRADA
Áustria - 50 - 100 - 130 -
Bélgica - 60 - 90 - 120 -
Bulgária - 60 - 80 - 120 -
Dinamarca - 60 - 80 - 100 -
Espanha - 60 - 90 - 120 -
Finlândia - 50 - 80 - 120 -
França - 50 - 90 - 130 -
Grécia - 50 - 80 - 80 -
Hungria - 60 - 80 - 100 -
Irlanda - 50 - 100 - 100 -
Itália - 50 - 110 - 140 -
Luxemburgo - 60 - 90 - 120 -
Holanda - 50 - 80 - 100 -
Polônia - 50 - 90 - 110 -
Portugal - 60 - 90 - 120 -
Romênia - 60 - 90 - 90 -
Grã-Bretanha - 50 - 100 - 120 -
Suécia - 50 - 70 - 110 -
Suíça - 50 - 70 - 120 -
Rússia - 60 - 90 - 90 -
Ulisses Iarochinski. Especialista de trânsito pelo VTI da Suécia e ex-diretor do Instituto Nacional de Segurança no Trânsito: [email protected]

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