O adeus ao velho guerreiro
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domingo, 12 de janeiro de 2014
Cecília França<br> Reportagem Local 
Depois de mais de três décadas, o bravo guerreiro se retira da batalha. Com cerca de 9 milhões de unidades comercializadas, o Mille não resistiu às novas exigências de segurança do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) e se despede com a edição especial Grazie (obrigado, em italiano). De acordo com a Fiat, seria inviável instalar airbags e freios ABS no hatch, pois oneraria o modelo, tirando-lhe a principal característica: a economia.
O Mille foi lançado no Brasil em 1984 com o nome Uno. Apenas da fábrica de Betim, em Minas Gerais, saíram aproximadamente 3,7 milhões de unidades do modelo, que entre suas façanhas históricas carrega a fama de ter sido o primeiro automóvel popular 1.0 a circular por aqui. Do Grazie Mille foram produzidas apenas duas mil unidades, todas numeradas, para todo o país, ao preço de R$ 31.200.
O modelo, destacado pela economia (algumas de suas versões chegavam a fazer 17,3 km/l na estrada), foi durante bom tempo o carro de frota e trabalho dos brasileiros, posto anteriormente ocupado pelos Volkswagen Fusca e Gol. Agora, na edição de despedida, a Fiat priorizou o conforto e introduziu itens inéditos e exclusivos, como a cor verde saquarema.
Dentre os diferenciais do modelo estão tecido exclusivo com bordado Grazie Mille; rádio Connect com CD/MP3, viva voz Bluetooth e entrada USB; subwoofer; nova grafia do quadro de instrumentos; pedaleiras esportivas; dois apoios de cabeça no banco traseiro; cobertura completa do porta-malas; forro do teto na cor preta; faróis de máscara negra; rodas de liga leve aro 13 com pintura exclusiva; ponteira de escapamento esportiva; adesivos Grazie Mille, frisos laterais e pintura da caixa de roda.
O modelo também conta com ar-condicionado, direção hidráulica, vidros e travas elétricas, desembaçador/limpador do vidro traseiro e retrovisor externo com comando interno (por haste, não elétrico). O substituto do Mille deve ser uma versão do Palio Fire (já há quem a chame de Palio Fire Mille). Boa maneira de a Fiat manter ao menos um "velhinho" em linha, já que a plataforma do modelo é a mesma da geração de 1996.
A concessionária Marajó, em Londrina, recebeu um lote de 10 unidades do Grazie Mille que, segundo o gerente de P&I, Milton Alencar, rapidamente se esgotaram. Segundo Alencar, a maior parte dos compradores da edição especial já tinha o Mille. "Tenho um cliente que comprou só para guardar", revela. Considerado um ícone, a despedida do Mille encerra um dos maiores cases de sucesso de um modelo no Brasil, na opinião do gerente.
"Uma série especial e limitada foi a forma que a montadora encontrou para agradecer aos nossos consumidores fiéis ao carro e à marca. Os exemplares são completos e com acessórios próprios da série, como roda de liga e som, além de receberem a identificação adesiva em suas laterais e uma placa numerada no painel", explica Alencar.
História
Com desenho simples e versátil assinado pelo estúdio ItalDesign de Giorgetto Giugiaro, o Uno surgiu na Europa em 1983 e, um ano depois, chegou ao Brasil para substituir o 147, principal modelo da Fiat desde sua instalação em Betim (MG). Ao longo dos anos, o carrinho apresentou infinitas novidades. Teve motores 1.3, 1.5 e 1.6, até estrear em 1990 o pioneiro e icônico 1.0. Foi aí que ganhou o sobrenome Mille (que acabou virando nome próprio com o surgimento do Novo Uno).
As linhas do Uno eram modernas e aerodinâmicas e, entre os detalhes curiosos, estavam as maçanetas embutidas e o limpador de para-brisa com um único braço. Embora curto (3,64 metros) e estreito (1,55 m), o Uno era alto para a época (1,43 m). Isso permitia uma colocação elevada dos bancos, com reflexo no aproveitamento do espaço, até hoje um de seus pontos fortes.
No interior, moderno e funcional, destacavam-se os comandos do painel, próximos ao volante, e o cinzeiro corrediço e de fácil remoção para limpeza. O porta-malas trazia o estepe e podia ser ampliado de 225 para 250 litros ao se alterar a inclinação do encosto do banco traseiro.
Simples e funcional, o Mille sai de linha para se tornar um marco na história automobilística e, certamente, os motoristas que se beneficiaram de seu conforto e economia durante três décadas, estão dizendo em coro: "Obrigado, Mille".
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